Imaginemos o martírio do comediante que envelheceu e se vê sem público. É o martírio da cortezã que se vê sem adoradores. Ela todos os dias ao espelho se vai gastando a olhar o embranquecer dos cabelos, o aparecimento das rugas. A pele perde a pouco e pouco a sua macieza, a carne torna-se mole, flácida, a bôca perde a airosidade da sua curva. Os homens vão-se. As juras e os protestos de amor evaporam-se. Á roda da criatura o gêlo sobe numa muralha que a isola do mundo. Imaginar a tortura dessa mulher curvada sôbre os estragos que o tempo vai fazendo, é imaginar a tortura do comediante curvado sôbre um passado que se evaporou. Que resta dele? Nada. Recordações, o que é quási nada. Cinza fria de apagado lume. As suas noites de glória, noites de ovação, noites de triunfo, o que são? Ninguêm se lembra delas. As suas criações, os seus fatos luxuosos de príncipes do acaso, imperadores de horas, quem os recorda? Ter sido grande e cair de repente no esquecimento é tão doloroso como ter sido rico, ter tido trens, equipagens, mulheres, e de repente ter que esmolar uma côdea para jantar. Mas o comediante é de todos o mais feliz. Foi vitoriado, aclamado. A sua figura fêz bater o coração das mulheres e despertar aplausos loucos nos dos homens. Foi feliz ao menos uma noite. E ter sido feliz na vida ao menos uma noite...

A tristeza do comediante comparada com a tristeza do escritor nada vale. A criatura que escreve não tem nunca consolações. O pior dos seus inimigos, o que a mina, a destrói, é a Dúvida. Para escrever uma página levava Flaubert uma semana. Eça sôbre o Crime do Padre Amaro gastou um têrço da sua vida. Acreditam todavia que, ao fim de tanto labor, êles poderam emfim descansar? Não, nunca! Depois da escrita, recebe-se a crítica com sobressalto. Se as páginas causam ruído, uma vaga consolação entra na alma da criatura. Mas é uma confiança firmada no ar. Basta que um invejoso venha entornar a sua taça de insídia, para que ela tenha logo torturas sem fim. No actor já ninguêm lhe pode apontar os defeitos, ao passo que o pelourinho do escritor é a sua obra. Envelhece e as suas páginas começam a tornar-se vélhas. Os que as louvaram, porque tambêm as viveram, morreram uns, esqueceram-se outros. E os novos veem, com a sua fúria iconoclasta, perturbar o sono aos pobres esquecidos. Veem, irreverentes e selvagens, sem respeito pelos nossos cabelos brancos, sem piedade pelas canseiras que tivemos, sem se lembrarem de que tambêm hão-de envelhecer, dizer que a nossa obra não vale um chavo, que nunca fomos moços, que nunca tivemos talento. E, mofando, destroem assim o que de mais caro nos restará. A dúvida, que já em novo nos perseguia a cada página feita, não nos larga mais.

É uma agonia pavorosa. Já não podemos ver os nossos livros sem horror. E tão intenso é êste horror profissional, que Zola não tornava a ler os seus livros depois de publicados e Flaubert os escondia no fundo das gavetas para não mais tornar a vê-los.

Ter escrito belas páginas, ter gasto a vida curvado sôbre uma obra, para que, no fim, o primeiro passante nos venha dizer que ela nada vale, é triste. Creio que não há martírio maior. Zola, que na Obra se autobiografou, rasga um bocado do que seja essa tragédia: «... o trabalho apoderou-se-me da existência. Pouco a pouco roubou-me minha mãe, minha mulher, tudo o que eu amo. É o gérmen lançado no crânio, que devora o cérebro, que se apossa do tronco e dos membros, que róe o corpo inteiro. Logo que salto do leito, de manhã, o trabalho agarra-me, prega-me à minha mesa sem me deixar respirar uma lufada do grande ar; depois segue-se o almôço; mastiga surdamente as minhas frases com o meu pão; depois acompanha-me, se eu saio, põe-se a jantar no meu prato, deita-se à noite no meu travesseiro, sem que eu possa deter nunca o pensamento da obra entre mãos e cuja germinação continua até no fundo do meu sono... Depois caio no sonambulismo das horas de imaginação, nas indiferenças e nos desconchavos da minha ideia fixa. Tanto melhor, se as páginas da manhã correrem bem, tanto pior se uma delas ficou defeituosa! O rosto rirá ou chorará, segundo o belo prazer do trabalho devorador... Fechei a porta do mundo por detrás de mim e lancei a chave pela janela... Nada mais, nada mais no meu antro, do que o trabalho e eu; êle devorar-me-há e depois não haverá mais nada, mais nada!

«As primeiras páginas ainda vão, mas depois, eis-me desanimado, nunca satisfeito com a tarefa quotidiana, condenando já o livro entre mãos, julgando-o inferior aos antecedentes, forjando-me torturas de palavras, de frases, de páginas, chegando até as próprias vírgulas a parecerem-me deformidades que me apoquentam. E quando está acabado, oh! quando está acabado, que alívio! não é um gôzo do indivíduo que se exalta na adoração do seu fruto, mas a praga do carrejão que deita abaixo o fardo que lhe magoou o espinhaço... Depois aquilo recomeça; aquilo recomeçará sempre; depois arrebentarei furioso contra mim próprio, exasperado por não ter tido mais talento, enraivecido por não deixar uma obra mais completa, mais elevada, livros sôbre livros, o empilhamento duma montanha; e terei ao morrer a medonha dúvida do que fiz, perguntando-me se aquilo estaria bem, se não devia ir antes para a esquerda quando passei para a direita, e a minha última palavra, o meu último estertor será para querer fazer tudo de novo...»

Tal foi a agonia de Zola. A dos outros foi uma agonia inconfessável, uma tortura que com êles se sepultou na Morte. ¿Onde existe pois maior tristeza do que esta? A tristeza do escritor, que um dia acreditou na sua obra e entra com êle o gusano da dúvida, não tem pendant na terra senão a do romântico que amou loucamente uma criatura que o atraiçoou—pobre banabóia que acreditou no Amor—ou a dos crentes que esperam no outro mundo ter a recompensa de todos os terrenos sofrimentos. Deve ser igual a esta a careta dêstes últimos, quando no limiar da morte se certificarem de que, ali, bons e maus são todos ossos, vermes, podridão e que não há bodo para os bons, nem caldeira para os maus.

Agora, pense-se na tristeza dos vélhos embarcadiços que o reumatismo prende em terra! A saudade dos longes de água, da amplidão, dos desertos sem fim, movediços e espumantes! Pense-se na tristeza dos caçadores a quem a velhice entropega as pernas e já não podem ir por montes e valados atrás da fugitiva e almejada presa! Pense-se em mil outras tristezas, que são mais própriamente tristezas profissionais. Pensem e digam-me se conhecem tristeza mais triste, amargura maior, dôr mais cruciante...

Eu não creio que haja. Não creio, e penso às vezes com horror no tormento indefinível e infindável da dúvida perpétua. Mata-se uma criatura a suar, a ralar-se e para quê? Para que outros venham, tambêm ingénuos e moços como nós fomos, alimentar o fogo em que lentamente se hão-de devorar. Ser grande, ser glorioso, para que depois se duvide, ser amado para que se seja esquecido, ser iludido para ser depois desenganado. E como se não bastasse já a mágua de nossas próprias vidas, ainda é sina acendermos por nossas mãos a chama que na velhice nos há-de queimar a fogo lento.

A morte