Penso às vezes na Morte com devoção. Nestes dias, em que o sol quente não chega a dar calor que abrase, penso em quanto será bom estar sob o lençol de terra, inerte, estendido de papo para o ar, sem apoquentações e sem cuidados! Penso e quási que os invejo—aos mortos. Êles devem estar bem consolados, como caminheiros cansados que alfim encontraram pouso. Ao passo que nós, os vivos, arrastaremos eternamente o nosso tédio e as nossas amarguras, aos baldões por essa vida fora, raro encontrando uma criatura que nos compreenda, sem afeições e sem carinhos, como um vaso feio em que as plantas não chegam nunca a florir. Como eu invejo, nesses dias, os mortos!
Deve ser consolador esta ideia! Não scismar,—e é o scismar que mata os homens. Não sonhar—e é o sonho que os infelicita. Saber que nem céu nem inferno nos espera, mas o tranqùilo sono da podridão. Corações que batestes, o vosso amor era pó. Pó, sómente, terra, cousa nenhuma. Cérebros que pensastes, o vosso labor quão fátuo foi. Homens de génio, mulheres olímpicas, estátuas de carne, soberanas do Desejo, raínhas, cortezãs, imperatrizes. Nada na Morte as distancia. Que tesouro enorme, que avalanche de cousas divinas a morte não guarda no seu seio!
Penso na morte com devoção! Penso na morte quanto mais lido com os homens e quanto mais conheço as mulheres. Os homens «são como aquele pedaço de gêlo que o Árabe, julgando ser um diamante, guardou cuidadosamente no seu alforje. Quando o procurou nem ao menos uma gota de água pôde achar.» As mulheres... as mulheres são uma taça. Metade fel, metade mel. Ninguêm procure todavia o mel. Nunca ninguêm o encontrou. Jamais alguêm o encontrará.
Estima, afeição, amor, sinceridade, dedicação, amizade, que belas e mentirosas máscaras. Belas porque, para a criatura que cegamente crê, tudo é belo. Mentirosas, porque tudo é mentira na vida, tudo, excepto a morte. É a morte a única verdade. E pensar em como a vida seria um doloroso escárnio, uma insustentável cousa, se até a morte fôsse mentira! Mas não. Quem um dia transpôs essa porta, que só se abre para lá, não mais sofreu. Maltrapilhos, nababos, lords e senhores, párias e fidalgos, todos lá serão esquecidos, irremediávelmente. É a única porta que se abre igualmente aos que vão vestidos de sêda e aos que vão vestidos de burel; aos que vão vestidos de ilusão e aos que vão desenganados. E nunca a ela esperam nem sequer os que vão nus.
Penso muitas vezes na morte e com alegria até.
Creio que é ela a única fôrça da vida. Porque, cansado de lutar, exausto, assediado por tudo, eu tenho nela a retirada, exactamente como a pedra girante do Noventa e três, de Vítor Hugo. Ora lutar, viver, cansar, sem uma porta para a retirada era uma cousa trágica. Foi por isso que o Destino, êsse Destino de que os árabes dizem «que conduz os cavalos pela noite», se encarregou de colocar atrás de cada combatente a porta para a fuga.
Por detrás dela cessam tôdas as distinções.
Não há já Carlos I nem Buíça. Não há já rei, nem professor; nem carabina, nem alvo. Há dois esqueletos só. Restos derradeiros de dois combatentes.
Nada mais.
A leitura dos jornais radicou-me no espírito esta cousa absoluta,—que é bem fácil morrer. Tão fácil, como difícil é saber morrer. Ou antes, morrer a tempo. Morrer a tempo não é «morrer moço», como quere êsse artista mago do verso que é Lopes-Vieira. Não é morrer em combate sem conhecer o triunfo e sem conhecer a derrota. Morrer a tempo é morrer exactamente como Mousinho de Albuquerque. É morrer de monóculo e casaca, como aquele milionário inglês que, no Cabo, se deitou ao oceano, talvez por spleen. É morrer como Antero. É morrer como Nerval. É morrer como morrem muitos de que as crónicas não rezam, nem a História fala.