Não há ninguém que não tenha, ao menos uma vez na vida, pensado na Morte com amor. Porque a morte não é uma cousa terrível, é uma deliciosa criatura que nos espera ao fim da vida para nos indemnizar de tôda a maldade dela. E só assim eu compreendo a Morte—não ser senão para os que tivessem sofrido. Os felizes não precisam de morte. Quem é feliz não tem direito à morte. E cousa que me irrita é esta. É que, sendo a morte a maior das delícias da vida, ela seja igualmente para mim e para o meu vizinho. Para mim que a vou merecendo e para o meu vizinho, anafado e feliz, que está bem longe de a ela ter direito. É a minha única inveja. Considerar que os outros teem que morrer como eu! Quando o meu desejo seria que êles vivessem, exactamente como o desejo do Ursus, de Hugo, que entendia que o maior mal que podia fazer ao seu semelhante era ajudá-lo e protegê-lo... para que vivesse.

Morrer! Morrer é bom. Vós todos que me escutais sabei isto. Que a morte é como o Diabo. Nunca tão feia como a pintam. Alêm disso, imaginai uma criatura condenada a viver. A viver como as catedrais dos tempos que já não lembram. A viver como a rocha que o tempo não conseguiu puir. A viver muito, a viver uma eternidade. Que maior pena, que maior degredo se lhe poderia dar! A criatura chegaria a ponto de ter que fugir. Escolheria para isso o suicídio. Mas a porta não se abriria para ela. Implacávelmente fechada, eternamente fechada. Seria uma tragédia bem horrível.

Ás noites, nas minhas noites de insónia, em que o cérebro é um novelo de fio, que o pensamento vai puxando sem nunca conseguir chegar ao fim, penso neste tormento indefinível. E quedo-me de horror!

Foi talvez por esta razão que aquele bonzo ou aquele sacerdote respondeu ao pária que, numa estrada, o interrogou sôbre o destino que havia de dar à pesada carga que levava.

Mas eu conto a história. Vem em Maxime du Camp:

Um brâmane estava um dia sentado à beira dum rio. Um escravo abanava-o com um leque sumptuoso, emquanto outro lhe prodigalizava a sua infusão aromática. A seus pés um caminho seguia onde os passantes se curvavam em adoração. E um homem que vinha curvado ao peso duma carga enorme, ofegante e exausto, disse: «Oh! brâmane! como és feliz em poder repousar à sombra!»

O brâmane olímpico respondeu:

«Cão, filho de cão, segue o teu caminho!» E como o miserável insistisse, o sacerdote de Wichnu redarguiu molestado: «Fala depressa então!»

«Estava na minha aldeia dormindo—começou êle—à sombra do pagode de Saraswati, quando um desconhecido que passava me despertou com brutalidade para me pôr esta pesada carga aos ombros, ordenando-me que caminhasse, até o encontrar. Estou cansado. Há três dias que caminho e não vejo o homem. Que devo fazer?» O sacerdote então interrogou: «Pagou-te adiantado?» e ao ouvir a resposta negativa, o brâmane, considerando na fadiga do pária, volveu solene:

«Não sabes a quem pertence o fardo, nem a quem o entregar! Não sabes o que contêm. Sabes apenas que é superior às tuas fôrças! Pois bem. Larga o fardo e vai-te».