É por isso, por êste fardo que se chama Vida resultar para alguns tão pesado, que êles o largam e se vão embora.

Poetas

A poesia é morta. Quási já não há poetas. E é curioso isto. ¡A poesia quási a extinguir-se num país de poetas! Portugal mais do que nenhum é por excelência o país dos poetas, se sinonimarmos neste têrmo todos os que publicam o seu livrinho de versos, embora às vezes sem dez réis de poesia.

¿Quantos livros de versos se publicam anualmente em Portugal? Aqui está uma estatística impossível. São inúmeros, são infinitos. Não há vilão, que meta um pé nas letras, que não diga dos seus amores, dos seus calos, das estrelas que vê ao meio dia, dos cabelos dEla, dos olhos dEla, em duzentas páginas, em cento e cincoenta, em cem, em vinte, ou dez ou cinco, pelo menos. O português vê-se obrigado a fazer um livro de versos. É fatal. Três cousas são indispensáveis ao cidadão: Ser vacinado, ir às sortes, e publicar o tal, o livrito de versos. Daí a morte da poesia, debaixo duma tão grande avalanche de poetas.

A poesia tende a desaparecer. Porquê? Porque já passou o tempo dos poetas. Mas dir-me-hão, ¿o tempo dos músicos, dos escultores, dos prosadores, de todos os que emfim vivem só para a Arte? O dêsses não tarda a passar. ¡As multidões egoismadas querem lá saber da Arte! ¿Que teem as multidões com isso? Absorta na sua luta pela vida, em lançar os gadanhos em arpéu o mais alêm que possa, a criatura dispensa perfeitamente a Arte. Pois se a vida de cada um é uma tragédia, inútil é demorar-se a ver a tragédia dos outros. Arte é um contrapêso inútil. E a prova, a prova fatal de que a Arte é um aleijão na vida das sociedades, uma demência, uma tara demoníaca e soturna, está em que, em todos os tempos, a multidão deixou morrer à fome os seus maiores artistas e vestiu de brocado e holanda fina os seus maiores ladrões.

A época é de prosa vil, bem vil por sinal. O verso antigamente era indispensável. Hoje não. Antigamente, para pedir cinco tostões emprestados, requeria-se em verso. Camões requereu galinhas.

«Cinco galinhas e meia

Deve o senhor de Cascais.»

Hoje pedem-se cinco tostões duma maneira!... Tambêm se agradecia em verso. Agora não. Os pobres às portas dos mosteiros cantavam. Agora quem canta vai preso, se é na rua e provoca ajuntamento; se é em casa pode cantar à vontade, que não ganha mais por isso. Até o ditado, o vélho ditado que não falha nunca, nos aconselha que não nos fiemos em cantigas, depois da razão, matrona experiente e sogra da fantasia, nos ter dito que não é delas que a gente vive. E para verem como tudo mudou, hão de ter cotejado muitas vezes isto: o agradecimento que era antigamente em verso, que é sempre uma maneira bonita de agradecer, tomou pelo andar dos séculos a forma de prosa—o couce—que é tambêm prosa e não das menos agressivas.