O poeta de há muito tendia a desaparecer. ¿A vida é luta, não é verdade? Mas luta de hipocrisias em que os maus vencem e os bons sucumbem. ¿Nestas condições, que há de o poeta cantar? ¿A hipocrisia, o mal vencedor e tirano, a astúcia esmagando com o seu coturno de sêda o arnez brunido da fôrça? Não.
Vão-se-lhe os motivos. O poeta já cá não tem nada que fazer. Já não há que cantar, cala-se o cantor. É o caso.
A poesia tem que render-se. É como rainha exilada sem reino e sem vassalos. Todos a abandonaram. Só um ou outro dedicado, fiel, intemeratamente fiel, fiel até ao sacrifício, espera e morre como êsse Eliseu Méraut de Les Rois en exil de Daudet, crendo ainda e bradando no limiar da Morte um último viva a uma soberania que morreu à muito.
E eram, afinal, tão interessantes, os poetas.
O Tempo
Representavam os antigos, o Tempo por um velhote de barba branca... Não é com isto positivamente que eu queria começar. O Tempo era um jornal de José Dias Ferreira, e Tempo se chama um jornal inglês de que os inglêses dizem que é o maior do mundo. Será. Mas para bem informar os leitores cumpre-me dizer-lhes que se é ou não, não sei. Nunca o li. À uma, dizem que é muito maçador, muito grave, tão grave que até parece feito por juízes do Supremo; à outra, eu não sei o inglês. Talvez isto pareça ignorância. Pois não é. Aí está o Marquês de Pombal, que, vivendo um ror de anos em Inglaterra, nunca passou do Yes, do artigo The e dos verbos to be e to have.
Mas do Tempo diz o Padre António Vieira que «tudo cura, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba». Não há soberano que tanto poder tenha como êle. A própria Morte é da sua côrte e sua subalterna. «Nada se faz sem tempo», diz-se. Tudo o tempo acaba, direi. Assim, temos, que o tempo faz e desfaz, cria e destrói, forma e arruína. As fortunas gastam-se, a formosura envelhece, a sorte muda, os anos passam, os dias voam e a morte chega. As flores murcham, as ilusões caem, as esperanças dissipam-se, os amores esquecem e de tudo só ficou o Tempo, sombra de tempo, memória de tempo, que até a própria memória o tempo apaga e confunde!
A sabedoria de Salomão, a bondade de Cristo, a dignidade de Catão, a valentia de Cesar e o amor de Jacob, são do tempo. O tempo é que as lembra, o tempo é que as esquece. O tempo é o maior amigo, o tempo é o maior inimigo. Porque se tudo traz, tudo leva; porque se tudo aproxima, tudo afasta; porque se tudo nos dá, tudo nos tira.
Ama-se uma mulher que nos ama. O tempo passa e em breve a sua beleza será fealdade; a sua mocidade será velhice. Culpa de quem? Do tempo. Ama-se uma mulher que nos despreza. Em breve o tempo levará os seus adoradores e transformará as suas faces em rugas e os seus beijos em flores sêcas. O tempo nos trouxe o castigo, o tempo nos deu satisfação. As rosas murcham, e não há grande obra que não esqueça.