Invejas para quê? Ódios para quê? «Sic transit gloria mundi». Oh quão passageira e falsa é a glória do mundo! ¿Quem se recorda hoje do segundo ministro dum rei de há três séculos—um cargo tão invejado!—e do general favorito de Breno—um cargo tão merecido? Quem? Quem hoje lê os vélhos? Quem hoje os aprecia? Vélhos, sombras do que foram. O tempo é velhice e Morte. Mas consolemo-nos. O meu vizinho, homem célebre, tambêm há-de morrer e ser esquecido como eu. Todos serão esquecidos. E se a alguns parece escolher o tempo, deixai. Dai o tempo ao tempo. Êle os esquecerá....
Ora, sendo o tempo uma cousa tão preciosa que cumpria não esperdiçar, antes conservar avara e egoístamente, roubar tempo é um crime, alêm de ser roubo. Os inglêses, dizem que tempo é dinheiro. Eu direi que roubá-lo é uma grande pouca vergonha, digna de muito cacete ou de fôrca, se quiserem. Não há país onde se roube tempo como em Portugal. Em Portugal, país do Amanhã, não há a noção do tempo. Ninguêm sabe o que seja pontualidade. Prometer e cumprir caso é de estranhar, agora prometer e faltar é caso trivial. Senão vejam os senhores em tudo e por tudo. Faz-se um pedido, qual é a resposta? Deixe para amanhã. Procura-se um devedor; amanhã paga. Pede-se fiado: «Hoje não se fia; amanhã sim». Tudo é amanhã, tudo é no outro dia, um amanhã que nunca chega e que só é pretexto para nos extorquir tempo e paciência.
¿Os senhores nunca foram registar uma carta ao correio geral? Pois vão, mas vão com pressa. Isso é que é pândego! Uma pessoa chega: há 15 pessoas agarra-das a um postiguinho muito pequenino, um daqueles postigos que através da distância de quinze pessoas só se vê por óculo. A gente chega e sossega. Póde sossegar à vontade. Ainda agora chegou. Se dá mostras de impaciência, o que está à frente abespinha-se e redargúi: «¿Que está o cavalheiro a fungar? Há uma hora estou cá eu». E a gente curva-se. Passa a olhar o sujeito respeitosamente. Caramba! «uma hora!» E tudo são cogitações. ¿Mas não há quem nos atenda? ¿Não há quem nos despache? Há sim, senhores. Há um tipo que está lá ao fundo chupando uma beatazinha, mãos nas algibeiras e dizendo, para outro matuto sorna como êle: «O cházinho era delicioso! E então os bolos. Os bolos, menino!...»
«Eu estou aqui há duas horas!» diz um escanifrado que agita uma carta. «Espere se quiser, diz o dos bolos. Há muito mais tempo estou eu cá e não faço tanta chiada!»
¿Os senhores nunca foram pagar a décima? Não foram? Felicito-os.
Pagar a décima é tambêm uma cousa divertida, para quem não é cardíaco, nem tem aneurisma nenhum. Eu fui uma ocasião, mas à cautela levei lunch, um couvre-pieds e um romance para ler. Não foram prevenções inúteis. Fui para lá ao amanhecer e havia candieiros acesos. Li o romance todo e comi até as migalhas do lunch. Comeria outro, se o levasse ou não receiasse perder o logar. Porque aquilo é à vez. Uma pessoa, munida do competente papel intimativo e do dinheiro para a ressalva, apresenta-se. Quando chega, há já uma linha de pessoas que vem até à rua. Umas ficaram de véspera, outras foram ainda de noite e as que foram assim quando os galos cantam e a aurora rompe, já encontraram três dúzias delas à espera. Outras vão chegando,—já se sabe, o competente farnel, o cobertor e o livreco—e tomam logar. Ás onze e meia—a repartição abre às 10—chega o garimpo que varre a casa. E é um tropel de gente que se empurra, que toma logar, que se instala. Neste apertão é vulgar perder a carteira ou ficar com um calo esborrachado. Mas tudo vai bem. A gente sentou-se, apara a paciência, abre o livro. Meio dia. Entra o pastinha. Depois entra o outro, depois o recebedor. São as feras. Há uma grade entre elas e o público, e um postiguinho, por onde a gente lhe mete a massa, que é como quem diz o sustento.
Começa a chamada. O patife parece que está a entoar cantochão. Vem ainda estremunhado. Entretanto os que não levaram livro vão contando a vida aos vizinhos. «Eu moro na rua da Ametade. O meu nome é Simão. O meu pai é timbaleiro. Minha mãe era parteira...» Ah!... O meu vizinho ressona de assobio. Um velhote quere dormir mas a conversa dos dois grulhas não o deixa pegar no sono. Bem: ainda há 44 adiante de mim. Eu volto à leitura. «José Ferreira Casmurro!» Pronto, diz o outro. É a chamada que continua. E os outros pensam: «Aquilo é que é um Casmurro com sorte». Ah! quanto falta para lá chegar?!
Aqueles bandidos não teem nenhuma pressa. Vão tranqùilamente zombando do tempo e da paciência dos outros. Passa uma hora, passam duas, passam três. Ao meu lado havia um petiz de ano e meio que mamava como um danado na têta da mãe, quando eu entrei. Quando se chega quási à minha altura alguêm do lado toca-me no ombro. Volto-me. É o petiz que interroga e pede: «¿O cavalheiro não tem por aí um cigarrinho que me dê?» Como êle cresceu, o brejeiro!
Emfim, na rua! Caramba, mas é de noite! Como o tempo passa! E aquilo lá dentro continua. Uff!