Quem diz registos e décimas diz tudo. «Olhe, venha amanhã! Olhe, espere! Se tem pressa, vá andando». Emfim é um nunca acabar. O que se resolveria em qualquer parte num quarto de hora, em Portugal leva um dia, uma semana, um mês, um ano, uma eternidade. Isto é o país das eternidades. Primeiro que as cousas cheguem...
Eu jogo não sei há quanto tempo com uma cautela de três na lotaria. Sempre o mesmo número. Pois para verem como Portugal é o país do amanhã, só lhes direi que é rara a lotaria em que a cautela me não sai branca. Ora não sei se os senhores estão a ver que se fôsse em qualquer outra parte já me teria saído a sorte grande...
Mas o que me consola é que o tempo virá e acabará com o meu dinheiro, com a minha vida, com o número em que jogo, com a grande, com a lotaria, com a Santa Casa e até com a lembrança de tudo isto.
E não sei se os senhores estão a ver que isso será uma felicidade...
A decadência do jornalismo em França
Um articulista parisiense, parisiense pela finura da sua expressão, pelo subtil da sua análise e sobretudo pela leveza scintilante da sua prosa, Ibels, acaba de declarar decadente o jornalismo francês. E vem, com uma santa ingenuidade, uma destas ingenuidades para medalha de ouro, e um espanto nada correcto, nem do mundo, dizer que o jornalismo francês decai porque o que lhe falta são jornalistas; porque os artigoleiros são muitos e os articulistas são poucos e porque finalmente êle é o eco de tôdas as chantages, o eco de tôdas as calúnias, o gramofone de tôdas as mentiras e o acusador de tôdas as reputações. E, indignado, prossegue: «O periódico moderno pratica a medicina ilegal, recomenda venenos, serve de intermediário entre donas de casas suspeitas e jovens de menor idade. Insere e entretêm a correspondência amorosa e adúltera e vai mais longe, publicando um boletim financeiro em que milhares de môscas caem prisioneiras vendendo os seus títulos porque acreditam na sinceridade do periódico que lêem». E diz mais, que isto, que aquilo, resumindo que é tudo uma pouca vergonha desaforada. A propósito, para não perder pitada, ferra uma tunda no Le Matin, que na sua opinião é um intrujão que já de há muito deveria ter a redacção instalada numa das celas da Penitenciária de lá.
Eu não conheço Ibels. As suas conclusões parecem-me acertadas. Mas o que acho interessante são os seus espantos. Admira-se. Admirar-se a gente é mau sinal. O Eclesiastes tinha dito que nada de novo há debaixo do sol. Ora a pouca vergonha é mais velha do que o Eclesiastes. É talvez mais vélha do que o sol. Mais vélha do que o sol, do que os deuses, do que a terra e do que tudo quanto existe. A pouca vergonha é eterna. Não tinha pois de que se admirar. Eu é que me admiro (oh, santa incoerência!) do seu espanto.
A decadência do jornalismo em França vem de longe. Balzac já lhe estudou as causas nas Ilusões Perdidas. E caso curioso, nas Ilusões havia tambêm um Luciano que se admirava. O articulista de agora é o Luciano de ontem. Está escrito: «Hão de existir Lucianos em todos os tempos!»...
Quem quiser saber destas cousas sem o tom acre de censura e lamento que perfuma o artigo de Ibels, antes com o tom risonho de quem está muito à sua vontade—como quem está em sua casa, por exemplo—deve ler um curioso artigo em tempos publicado na imprensa espanhola. Chama-se Esplendores y miserias del periodismo. Assina-o Gomez Carrillo, cronista do Liberal, creio eu, literato de Espanha vivendo em Paris e artista urbi et orbi onde vá a língua de Quichote ou a respectiva tradução. Aí é que se diz tudo! Tudo e ainda mais o que disse Paul Pottier, homem lido e sabedor.—Ora diz Carrillo, e escreveu Paul Pottier, que «para 600 empregos no jornalismo há 3.000 jornalistas». ¡E se êles, todos êsses pobres concorrentes, soubessem o que os espera! Uma vida sugante e angustiosa. Nem horas de comer. Dormir incerto. São os cavalos de posta da notícia. É preciso lutar, lutar sempre. O que chega a Paris cheio de vontade leva um dêstes abanões que quási o deitam a terra. O jornalismo é uma luta. Não há jornalistas, há cavalos de corrida. ¿Qual dará o artigo, a notícia, o comentário mais desenvolvido, mais agaçante de pormenores, mais chorudo de minudências, mais dramatizado de bagatelas? O público quere. O público aguarda. Quere cousas novas, cousas inéditas, cousas imprevistas. Um assassínio? Isso é vélho. É preciso achar novo. Não há? inventa-se. Saber inventar, eis a questão em ocasiões difíceis.