Ao cabo de três anos num logar subalterno, tendo dado tudo o que trazia na cabeça, tendo gasto todos os seus nervos, puido tôda a sua vontade, sem nada no estômago porque se alimentou mal e irregularmente, com uma neurastenia aos ombros e o vácuo no cérebro, a criatura é corrida a pontapé do jornal e vai direitinha a um manicómio onde nunca mais a endireitam.

Os grandes jornais baixam as suas tarifas de pagamento. Quási todos desceram a linha a 15 cêntimos, com excepção de Le Temps que paga 30, Le Figaro que dá 25 e Le Gaulois e Gil Blas que não dão mais do que 20. É certo que Catulle Mendés cobrava de Le Journal quarenta mil francos anuais, sejam sete contos e tal. Mas Le Figaro, que ontem dava a Huret 2:000 francos, não dá hoje a Serge Basset pelos teatros senão 1:000.

Harduin no Le Matin recebe 1:500 francos, com obrigação de escrever todos os dias um minúsculo artigo. Sarcey recebia de Le Temps 1:000 francos mensais pelos seus artigos. Octave Mirbeau e Severine, que no Le Petit Parisien recebiam importantes honorários, foram dispensados da sua colaboração. E os contos que Fernand Xau pagava a 300, 250 e 150 francos baixaram a 25, e últimamente a 15 francos. E isto em jornais que tiram milhões de exemplares.

Os nomes cotados fazem-se pagar bem. Porêm para os que veem sem nome, para êsses, o caminho da imprensa é um calvário. São recebidos com duas pedras na mão; exactamente como no tempo em que Luciano queria o logar de redactor no periódico que tinha por Cerbero o vélho militar. E devemo-nos lembrar de que todos os citados são os bem pagos: os da fôrça de Mirbeau, por exemplo, que só com um artigo fêz o nome a Maeterlinck...

Considerai o que não será agora nos subalternos?!...

Um escritor que viva de escrever e que tenha já uma pequena voga vê-se obrigado a rebentar com trabalho para cobrar um estipêndio rasoável. As revistas não lhe publicam um artigo senão de três em três meses pelo menos, para não repetirem o nome do colaborador; os grandes jornais, de que êle vive, baixam-lhe dia a dia a tarifa. Os artigos reunidos em livro dão uma bagatela. Os livros que são enviados ao periódico, para criticar, vendidos e regateados não dão para o alfaiate. De maneira que a criatura vê-se e deseja-se.

Isto é tendo certo nome, porque de contrário nem as revistas lhe aceitam artigos, nem os grandes jornais lhe abrem a porta, nem os livros lhe chegam à mão.

E a tanto chega o descaramento que Magnier, senador, que largos anos possuiu L’Evenement, dizia aos seus redactores: «O que preferem os senhores? ¿Que lhes marque um ordenado de 500 francos por mês e não o pague ou que lhes dê 250 para os pagar?»

Quer o redactor aceitasse uma ou outra proposta, sabido era que não via cinco réis. E a maneira de alguma cousa receber era negociar com êle uma parte da página dos anúncios. Se não andava depressa na cobrança ficava sem real, porque o director mandava tambêm cobrar. E quantas vezes o redactor ao chegar não soube que os anúncios já estavam pagos...

Êste Magnier era caloteiro contumaz. Conta-se que Aurelien Scholl, a quem êle devia certa soma e não tinha maneira de a receber, uma ocasião ao ver passar o seu trem correu para êle, desprendeu os cavalos e foi vendê-los ao Tattersall. Foi uma inspiração divina. Senão podia dizer adeus ao débito.