A imprensa francesa explora o escândalo, explora o público, explora todo o explorável. Até aqui muito bem! Que há nisto de estranho? ¿Pois não é natural que meio mundo explore a outra metade? E Ibels, indignado, cita o Panamá, cita mil casos em que o «periodismo» tem sido nefasto. E deixa, o maroto, ficar no tinteiro a questão Dreyfus.

O jornalismo tem bons e maus. Que êle esteja decadente, não acredito. Êle é o reflexo do seu tempo. Exigir jornais sãos numa sociedade podre parece-me exigir de mais. De acôrdo que os maus sejam mais do que os bons! Mas isso que importa? Se às vezes um jornal só, um homem com uma pena na mão, fica nos séculos, sobreleva acima de tôda essa podridão, de todo êsse enxurro, de tôda essa vaza, cujo mau cheiro só o tempo purificará?!

Que importa, se um brado de Justiça vale mais do que uma multidão berrando, e se um jornalista de consciência vale mais, tem por si só mais fôrça do que um grande exército?!...

Que o jornalismo está decadente? Embora. Êle é ainda a árvore onde de tempos a tempos se empoleira uma criatura para dizer que o manto, o celebrado manto de el-rei da fábula não passa duma hipocrisia ou duma cegueira.

O Carnaval

Eu não posso folhear atentamente a obra de Rafael Bordalo sem me demorar nessa página suprema, traçada num minuto de tédio e feita num instante de aborrecimento: A última máscara. A última máscara é, escusado dizê-lo, a máscara da Morte. Se a do feto é a primeira máscara, a da caveira é a última. A última máscara, de Rafael Bordalo, representa pois a caveira.

Esta vida são três dias, diz-se. Êsses três dias simbolizam as três idades. O Carnaval são três dias, que tantos são os da vida. Esta vida é pois um carnaval. Murger chamou-lhe uma «máscara de forçados» outros lhe teem chamado o que melhor lhes tem parecido. Não inquiramos. Assunto complexo, se se quiser explicar, traz consigo complexas deduções. E não há assunto mais complexo do que a Vida.

O carnaval que a gente vê, ou por outra que a gente viu, é bem pior do que aquele de que a gente se lembra e bem melhor do que aquele que se verá. O carnaval tende a desaparecer. A graça foliona, travêssa, doudejante, morreu. O que por aí anda é outra graça, uma graça que sorri nos intervalos de tosse e nos intervalos do riso mendiga dez-reisinhos.

Se não, é ver-se como a fôlha mais bem escrita do Carnaval é a de quarta-feira de cinzas, esta quarta-feira em que vos escrevo, satisfeitíssimo por ter visto as ruas despejadas de mendigos enfarinhados, mendigos pierrots, mendigos chechés, e mendicidades ambulantes, danças, paródias, filarmónicas e tutti quanti. Passou a época das tremoçadas. Chapéu alto que passava era penante dado ao criador. Ninguêm se aventurava a sair. Despejavam-se barricas de tremoço sôbre o desventurado que ia assim mais asseadinho.