Uma criatura saía. Á saída da porta levava logo com uma luva cheia de areia pela cara que ficava azul. Andava mais um minuto e era uma assuada. Cada minuto cada nova aventura. Algumas de que saía mal-ferido. Á hora de jantar, quando a criatura recolhia e se inventariava, via com desgôsto que o chapéu estava inconcertável. A farpela cheia de farinha, com um ovo feito em estrêla nas costas, seis farpões de rabos postos e arrancados. Um ôlho a menos. O colarinho zebrado com uma longa lista de pós de sapatos. A camisola cheia de areia, a guedelha cheia de farinha e as botas—ah! as botas!—cheias de lama—porque soe chover quási sempre pelas entrudadas,—e a chuva é o protesto do infinito.
Vejam lá hoje. Tantas são as leis publicadas sôbre o Carnaval que a gente se vê na absoluta necessidade de consultar um advogado sôbre se será prejudicial atirar uma serpentina.
O advogado consultado promete estudar. Estuda e apresenta a sua resposta quarta-feira de trevas, ao mesmo tempo que apresenta a conta da consulta. São pelo menos 2$500. Vejam lá se há cousa mais interessante.
Antigamente a criatura, depois de borrifada com urina, zurzida de tremoços, mascarrada de pós de sapatos, enfarinhada, maçada e enlameada, recolhia num bolo, mas alegre. E resumia para a família:—Aquilo é que foi divertir! Agora não. Sai de chapéu alto, escovada, correcta, exactamente como se fôsse para aquelas
recepções da embaixada
em que há uma duqueza que sorri, «tão branca, tão decotada» que até dá vontade de a gente resumir, ao recolher a casa:—Ai, filha, que papança, o que traduzido em vulgar quere dizer:—Ai, filha, que maçada!
Ah! o Carnaval civilizado! ¿Já viram maior pouca vergonha? Antigamente a gente não saía. Agora, sabendo que volta com o arranjinho como foi, sai. Sai, e volta abrindo a bôca, espreguiçando-se, moída, sem ânimo, farta de ouvir baboseiras e de ver misérias ambulantes. As ruas são tristes. Os bailes são quási macabros. As mascaradas são lúgubres:—¿O cavalheiro dá licença que eu lhe atire êste saquinho de bombons?—Pois não! ora essa! O cavalheiro atira. A gente guarda. Chegando a casa abre o saquinho. Não são tal bombons. São feijões, são tremoços, é grão de bico. Comentário—Que intrujice!
Se abstrairmos do Carnaval e volvermos os olhos misericordiosos sôbre esta mascarada em que todos entramos, uns mascarados de sinceros, outros de cínicos, uns vestidos de moços fidalgos, outros de moços de fretes, uns vestidos de archeiros, outros de par do reino, a desilusão resulta pior. Porque, bem considerando, tudo na vida é mascarada e tudo são máscaras. ¿Por que razão é que, tendo um homem nascido nu e entrado na morte como a mãe o depôz cá neste mundo, essa súcia inventou que um bocado de galão dourado pôsto num braço provoca um gesto de submissão, e pôsto num caixão nos faz pensar nas vaidades de todos os galões e de todos os gestos? ¿Por que razão é que quem «rouba um milhão é barão e quem rouba um pão é ladrão», como diz o poeta? Tudo se mudou. «¿Antigamente não eram os ladrões pregados nas cruzes e não se pregam agora as cruzes nos ladrões?» Fala certo Junqueiro:
E não estala um ai de dôr em cada peito.
E não submerge o monstro a cólera do mar,