E a terra continua em seu girar perfeito;

Ó Chimera, ó Tristeza, ó Justiça, ó Direito,

Providencia onde estás, que te quero insultar!

A indignação passa, a miséria fica. E para que há-de a gente considerar em tanta miséria?!

É fatal. Se a gente scisma e se ensimesma, pobre dominó sentimental! Dominó lunático, sonhador escarnecido! Se a gente ama, pobre tolo, que anda na lua. Se acredita, que assuada! se considera, que filósofo! E não há que scismar, que sonhar, que amar, que acreditar e que considerar. É deixar-se ir no vortilhão, como quem aborrecido vai na onda, empurrado, sem sentir os empurrões, escarnecido sem ouvir os escárneos, apupado sem ter ouvidos para os assobios. Em resumo: É a vida um baile de máscaras muito aborrecido. Entra-se julgando a gente divertir-se imenso, e, quando se chega a quarta-feira de cinza, encontra-se, depois de muita maçada, morta de aborrecimento e de tristeza com êsse dominó embuçado, misterioso, que tem um riso eterno e que é o porteiro da saída. Êsse dominó é a última máscara. É a ultima máscara que mudamos e é o último mascarado que encontramos. Como Rafael Bordalo deveria estar morto de tédio para fazer a síntese duma filosofia num quarto de papel—a síntese da filosofia do riso, porque o riso é uma filosofia em que sempre se acaba a chorar.

Mascarada! Mascarada eterna! Mascarada que veio através dos séculos até nós e de nós irá por êsses séculos sem fim. Mascarados que todos nós somos. Quando falamos mentimos, quando juramos mentimos. Quando tentamos falar verdade ainda mentimos, porque a verdade não é mais do que uma mentira menos mentirosa. E, senão, que nos mostrem algum amor que o seja, algum amigo que não falseie. O amor—uma Colombina e um pierrot—Mas livra-te de amar, porque serás o pierrot traído. A amizade—uma espada que se quebra ao sair da baínha para nos defender. E entre outras desilusões, de vez em quando passa por nós sorrindo a última máscara, de Rafael Bordalo.

Eu invejo os que se divertem. ¿Como serão feitas lá por dentro as criaturas que se divertem? Não sei, e creio que nunca ninguêm o saberá. Invejo-as, porque não sei se elas existem. Acho mesmo que as criaturas nessas condições estão em igualdade com a do feliz, que Manuel Bento de Sousa pôz em quadras. O sultão, para se restabelecer da sua grave enfermidade, precisava nem mais do que da camisa dum homem feliz. Embaixadas, expedições, o demónio e nada. O homem feliz não aparecia. Interrogados os súbditos dos seus estados, à uma todos responderam que não, que não eram felizes. Só um pobre, que puxava a uma nora e cantava, respondeu que sim. Êle possuia essa cousa tão rara como o amor e como a amizade. Êsse era feliz. Foi o pobre diabo amordaçado e conduzido sôbre um camelo à presença do régio doente. Era a cura. Mas logo que o despiram se verificou com espanto que êle,—o homem feliz,—nunca tivera camisa.

É bonita a história, ¿mas quem nos diz se não será mentira? ¡Sucedeu há tanto tempo e num país distante!

E com estas e outras histórias, umas cómicas, outras trágicas, se passa a crónica e a vida. E depois à saída do baile, lá espera o dominó fatal.

É por isso que eu me demoro, sempre que folheio a obra de Rafael Bordalo, nessa página que representa a última máscara.