Ora há muitos anos que a gente tem outra—ali para as bandas de Jesus, que se chama, creio, Academia Real das Sciências. É uma sociedade onde os sócios teem fardamento tal como a Incrível Almadense ou a banda dos bombeiros de Chão de Maçãs. Fardamento, chapéu armado e espadim. Para que serve, não sei. Que tem feito? Quási nada. Um dicionário que ficou em azurrar. Ora eu entendo que em vista de nunca ter passado do A, sendo já tão crescidinha, se lhe dê outro ofício. Está provado que não nasceu para aquilo. E o que é mais, não tem vergonha nenhuma. ¡Sempre é uma tamanhona sem préstimo!

Bem visto, ela está no seu papel. As academias não se fizeram para fazer cousa alguma. Academia é para a gente se reunir, fumar a sua cigarrada, jogar a sua partidinha de dominó, com a municipal à porta, mandar para a mesa duas cartas que o ilustre sócio escreveu ali ou trouxe escritas de casa, dizendo—«Peço ao ilustre presidente o obséquio de dar essas cartas ao contínuo para as deitar no marco quando sair!» Ás tantas levantam todos a gola, dão as boas noites e desandam para vale de lençóis.

Teófilo Braga disse uma ocasião em público: «Academia é uma colecção de sábios, que caminha para o pedantismo». Foi muito amável. Foi muito amável porque se alguêm quiser saber o que é a nossa Academia Real, etc., consulte o Cancioneiro da Vaticana no seu prefácio. Ali verá que nunca o Cancioneiro seria impresso se não fôsse êsse benemérito sábio que foi em vida Ferraz de Macedo, o antropologista. Porque para ser impresso pela Academia não havia dotação e um dos membros da classe de literatura de quem dependia a aprovação do Cancioneiro julgava que o texto era latim!

Mas há mais. Não havia dotação para o Cancioneiro, mas houve perto de dois contos de réis para gastar com o embelezamento das salas para a celebração duma sessão real, uma sessão solene. Com o dicionário já se gastaram algumas dezenas de contos de réis e não serve para nada, o estafermo. Não é caso para dizer «não estala um ai de dôr em cada peito», mas «e não há um arrocho que os desanque!»

Depois, ¿para que servem as academias? Que préstimo teem? Eu não lhes conheço nenhum. Nunca de nenhuma Academia saíu um homem de talento, e em compensão os que o teem e entram para elas perdem-no logo. Senão digam-me a obra grande, de utilidade ou de valor, que as academias tenham fomentado! Qual? Nenhuma. Crer-se-ia na plausibilidade disso se Academia não fôsse um vaso de víboras como o de Carlyle, víboras desdentadas, invejosas e pequeninas, e que, para não deixar entrar nenhuma ideia nova, nenhuma ideia grande, até pôs guarda à porta, exactamente como à porta dos parlamentos se põe tambêm guarda, que é para que a Justiça fique de fora.

Plauto, o cómico, não foi da Academia Real das Sciências. Cervantes, tambêm não. Shakespeare tambêm não. Camões, idem. Ora aqui estão uns mágicos que não precisaram, para entrar na imortalidade, de apresentar o cartão de visita tendo por debaixo do nome «da Academia Real das Sciências, da Sociedade Filarmónica Capricho Recreativo, da Sociedade dos «tacões ao domingo, etc.». E estou até desconfiado de que o porteiro, ao ver tal, e ter olhado bem para a cara do sujeito, lhe diz com um risinho e uma palmadinha no ombro: -«O amigo está enganado! Tem que descer. Isso é na cave!»

Porque a imortalidade é o único logar para que a farda não serve de passe de livre trânsito.

Malheiro Dias diz, nas suas Cartas de Lisboa, que «a mais alta categoria social não vale uma farda de simples adido de embaixada, com plumas de avestruz no bicórnio e folhagem de vinha e oliveira, bordada a ouro, na gola»; pois com êste simples fardamento os polícias fazem continências, os municipais abrem filas e a multidão comprime-se para dar passagem. Isto ao subir a calçada da Ajuda.

Será verdade. Mas agora aqui me ponho eu a pensar que talvez a farda não valha para a imortalidade, porque para ir para lá a Ajuda não é o melhor caminho. Sim. Deve ser isso. Assim é que Plauto foi moço de padeiro, Camões foi soldado e Cervantes soldado e pobretão, e entraram. Camões tinha farda, mas quando morreu estava no prego. Em compensação, dos ilustres fardados da Academia, o porteiro não deixa lá entrar nem três. Vejam lá se vale a pena gastar dinheiro no alfaiate quando o que é preciso é gastar noites a fritar os miolos.

«Cá e lá más fadas há». Isto não é de nenhum dos escritores que eu costumo citar. Isto é da sabedoria das nações. Os senhores já sabiam?! Pois em França é tambêm assim, quando não pior. A Academia dos Goncourts, fundada para dar um prémio ao melhor romance, não tem estimulado nada o talento dos bichos que concorrem. Tem-lhes estimulado mas é o apetite e a solércia. Não os podendo fazer mestres em romance, fá-los mestres na empenhoca. E por isso o premiado é sempre o que mais empenhos tem. Pois então.