Não se desconsolem os que não são académicos. As academias não são para todos. Isto é dúbio, bem sei, mas entenda-o cada qual como quiser. E estou escrevendo e está-me lembrando a caricatura de Zola feita por Gilbert Martin: Zola vestido de mineiro, cachimbo, botas altas e lanterna, oferece o braço à Academia, uma vélha esganiçada e tôla, ao mesmo tempo que lhe pisa a cauda. É claro que a vélha escama-se e não dá o braço. E a propósito da Academia e de Zola há outra publicada na Silhouette: Zola, com os seus livros às costas, puxa o cordão da campainha da Academia. Puxa, quebra o cordão e a porta não se abre. Zola não entrou. Objectar-me-hão: mas queria entrar! Queria por estar a porta fechada para êle. Por teimosia, por pirraça. Se lá entrasse o mais certo era... vir embora.

Maupassant disse que três cousas desonravam um homem: a Academia, as condecorações e a Révue des deux mondes. Depois, passados muitos anos, prestes a morrer, escrevia na Révue, estava para entrar na Academia e creio que era condecorado. Ironias do Destino. ¿Quem sabe lá se eu um dia tambêm serei sócio da Academia? Tudo é possível. Então serei um velhote grave, ponderado, sério, terei óculos, um grande horror ao galicismo, um poucochinho de pancada na mola, e uma coleira ao pescoço com a chapa da casa. Todos êles teem. Pancada na mola e um bocadinho de imbecilidade. Vai daí, a Academia forneceu-lhes a chapa para os distinguir da outra gente, e para que as prendas se não percam.

Pois quando eu lá chegar, ia dizendo... Mas emquanto não chego, ¿os senhores dão-me licença que acenda um cigarrinho?...

O passado

Desejar a morte é ainda querer voltar ao passado. E assim como há dias em que ser morto é a ânsia que me lança um baraço ao pescoço e me afoga, outros há em que uma ânsia regressiva me faz voltar atrás para tornar a viver sôfregamente os dias já vividos. Hoje é um deles. Lá fora o céu pôs o seu «plúmbeo capacete». Por vezes uma chuva miudinha e intérmina envisca tudo da sua frialdade. E as almas, ressentidas de tanta fereza, voltam-se a viver o Ontem, queimando o Hoje gélido na lareira das mornas recordações.

Recordar não é só privilégio dos vélhos. Lembrar, é ainda na vida o único lenitivo.

Ai! o que seria a vida para aquele que não tivesse a memória e a fantasia,—o Passado e a Ilusão.

Com a memória vive-se, com a fantasia sonha-se. Mas vive-se deliciosamente e sonha-se um sonho ainda mais delicioso. Por isso em dias assim,—um chuvisco frio minando as energias,—as almas vivem e sonham. Lá fora há lama e frio. Cá dentro, acesa a fogueira, principia o desfile.

Então não há recordação, carta de amor, beijo dado ou passado dia, que não traga o seu quinhão. São pequenas cousas, cousas mínimas que se transfiguram. A saudade vê sempre por vidros de aumentar. Aí começa a gente a viver com fúria dias maus, que, comparados com os de hoje, nos parecem bons, dôres sofridas que cotejadas com estas, nos parecem verdadeiros prazeres. Ao fim, quando aquela galopada furiosa desfilou, quedamo-nos encolhidos scismando: como a gente envelheceu! E a saudade manda recomeçar a sessão, como num animatógrafo em que a fita recomeçasse a passar.