¿Qual de vós não sentiu já, por vezes, esta ânsia de recomeçar novamente? ¿Fazer de novo a obra já feita, ganhar de novo o já ganho, de novo sofrer o já sofrido, beijar o já beijado, amar o já esquecido, e tornar depois, ainda, a recomeçar? Todos, de-certo. Êste desejo sentiu-o tôda a gente. Mesmo sem sêr vélho, mesmo sem ser gasto. Um dia de chuva basta para nos lavar dos egoísmos e desenterrar em nós amargas recordações. O inverno desperta sempre saudades para nos dar lágrimas. O sol, o «claro sol, amigo dos heróis» se nos dá vontade de partir é consoladoramente, como quem nunca sentiu saudades, porque a saudade, sendo o único mal, é o único bem da vida. Quem tem saudades não deseja a morte. A morte é o fim e só se chega ao fim quando não há mais nada.
Pois bem. Recordo hoje. Tôda a minha vida desfio, lentamente, como as contas dum rosário em dedos de monja crente. Busco, rebusco e, como alguêm, que, buscando, volta as fôlhas dum livro, não encontro nada. Nenhuma saudade, nenhuma recordação. Quimeras não tive nunca, e esperanças não tenho já. De tanto esperar, desesperei.
Se alguêm, como a Job, me perguntasse, na hora extrema, na hora derradeira em que as memórias se reunem em volta do frio leito, como no soneto de Antero, se quereria recomeçar de novo, fazer de novo a obra já formada, beijar de novo os beijos já beijados, crer de novo os sonhos já mentidos, eu, a-pesar do meu amor ao vivido, virando-me para o outro lado havia de responder, juro-lhes:—como é triste o dia, lá fora!—Que não, que não valia a pena.
Entrado na agonia, não voltaria os olhos. Não fôsse a Saudade querer, a-pesar de tudo, entrar comigo a larga porta que dá para a eternidade.
O calor
Os senhores leram já de-certo, aquele livro Á Esquina, onde há um trecho maravilhoso que se intitula Ceifeiros? Leram? Pois como Flaubert, ao descrever o envenenamento da Bovary, sentia na bôca o sabor do arsénico, eu, ao ler pela primeira vez o trecho do Á Esquina, senti a sensação do calor. E a mesma ânsia de ir buscar água fôsse onde e qual fôsse, a mesma intraduzível agonia dos ganhões do Alentejo, se apossou de mim. Água! água! E êsse martírio que não conhecia, como um pesadelo, tornou-se realidade. Lisboa deixou de o ser. Tornou-se Alentejo, tornou-se África, forno, o que quiserem.
Nem uma aragem move as fôlhas. Os pássaros, de bico aberto, respiram a custo. A gente deitou fora todos os superlativos do trajo. Foram-se as camisolas, foi-se o colete, buscou-se o mais transparente casaco. E como é de uso sentirmos o mal alheio quando nos toca pela porta, aqui me ponho, mente soturna e cogitativa, a lembrar a agonia dos fogueiros, êsses homens sepultados no interior dos grandes transatlânticos, de todos os que trabalham sob a pressão de altas temperaturas, no mar ou em terra, em oficinas ou fábricas. E afigura-se-me horrível agora, que o ar me falta e tôda a terra zumbe à minha volta, tonta de sufocações. Mas, é claro, logo que surda a primeira aragem, já a miséria dêsses proletários me será tão indiferente como a morte de algum mandarim desconhecido nos limites do Celeste império dos mandarins, do chá Pouchong e dos papagaios de papel.
Com êste calor nenhuma ideia se manifesta. E como é impossível trabalhar, deita-se a gente a admirar o que os outros fizeram... em ocasiões em que a temperatura de-certo não pesava tanto. Escrever? qual! A tinta é inútil. Tanto se sua, que já a tinta se dispensa. Um regatozinho vem do tórax ao punho, do punho à caneta e daí ao papel, acompanhar e colorir o garatujar da pena de aço. Por isso, os artigos agora não são escritos, são suados. Um movimento não é um movimento; um gesto é um sudorífero.
Energia? decididamente não há energia com um calor dêstes! Ainda que se diga à criada para a meter dentro dum balde de água quando se vai buscar, ela está tépida—é uma energia água morna, uma energia sem gana, sem nada, muito a pedir pílulas Pink ou uma carapinhada.