Tambêm, justo é dizer que para nada é precisa. Não é precisa para pôr um credor a andar, porque qual seria o credor, quem tão herói seria, que se aventurasse a atravessar a cidade debaixo dum calor dêstes? Sim, porque uma pessoa sai de casa, e, a não ir dentro de um frasco, ninguêm lhe garante que chegue ao seu destino. Já não é a primeira que se derrete pelo caminho. Não sendo precisa para um crédor, ¿para que diabo será urgente? Meia Lisboa foi-se embora e a que não foi, ou vai ou tenciona ir. Porque ir em pensamentos é quási o mesmo que ir em realidade. Razão por que há tanta gente contente em teoria.

O calor não é tão realmente mau como se imagina. Dum casal pobre sei eu que come fiado todo o inverno. Fregueses antigos, a mercearia vai fiando e agora por esta altura deve o rol andar por uns sessenta a setenta mil réis, um absurdo para um par miserável. O merceeiro, porêm, logo que o calor aperta, esfrega as mãos de contente. E todo êle é fariscar a atmosfera, sondar, fazer perguntas a respeito dos astros. O casal, averigùado o interêsse do merceeiro, vim a saber, paga de verão a conta tôda e gasta algumas arrôbas de açúcar. Êle e ela, cada um para seu extremo da cidade, com uma quitanda portátil, vendem refrescos e manipulam limonadas, com um furor que toca as raias do delírio. Á noite, recolhidos a casa, se não ganharam tanto como um director geral, sempre lhes sobra para deitar abaixo uma talhadinha da conta do merceeiro. Daí o contentamento dêste e o contentamento dos que vendem. Porque todo o desespêro é dos que pagam.

Trinta e duas limonadas, meu caro amigo, dizia-me um cavalheiro, trinta e duas! E eu, estarrecido, tocava a mão em cujas veias circulavam trinta e duas limonadas. Decididamente, o cavalheiro não era cavalheiro, era um contador de pressão. Se lhe desandassem a torneira, apagaria um incêndio.

Se o telefone toca, já se sabe para que é: para pedir ao Silva, da Violette, que mande um refrêsco. E metem-se empenhos. Perguntem a um homem célebre neste momento:—¿O cavalheiro diz-me qual é o seu ideal? Ora a resposta é sabida. O cavalheiro passa a mão pela lustrosa gaforina, scisma, dá dois estalinhos com a bôca e, depois, solene, com o ar macbético e profundo de quem vai responder à imortalidade, diz: «O meu ideal? O ideal seria um capilé! sentir o criado trazer num cristal o líquido colorido, tocar-lhe e sentir a sensação de frescura; saborear depois a pequenos goles, hein! Pois não seria o ideal?» Concorda-se, é claro, e manda-se vir: «Rapaz, dois capités!»

Uma ocasião, foi isto em 1849, Gustavo Flaubert e Maxime du Camp desembarcaram no Egipto. Subiram o Nilo e internaram-se no deserto só com 3 odres de água, uma água mais do que morna, pútrida e detestável, que era transportada sôbre um camelo. Uma fatalidade fêz com que o camelo caísse e esmagasse os odres, perdendo-se a água, que nunca mais, durante três dias, se pôde encontrar. Conta M. du Camp: «Tinha a bôca sêca, os lábios farinhentos; a bicharia do meu dromedário tinha-me invadido e devorava-me. Na nossa pequena caravana ninguêm falava...» E com uma minúscula pederneira quebrada colocada sob a língua, para entreter a actividade das glândulas salivares e neutralizar um pouco a sêde, os desgraçados agonizavam. Os senhores tirem o suplício por êste calor. Imaginem êste inferno,—eu sei lá—elevado ao quadrado! Senão quando, de repente, pelas 8 horas da manhã, ao passarem num desfiladeiro—uma fornalha—Flaubert numa obsessão doentia se volta para M. du Camp e lhe diz: «¿Lembraste dos sorvetes que se tomam no Tortoni?... O sorvete de limão é uma cousa superior; confessa que não desgostarias de engulir um sorvete de limão». Daí a 5 minutos: «Ah! os sorvetes de limão! em redor do copo há um vapor húmido que se assemelha a uma geada branca». E já du Camp, azêdo, ofegante, agonizado, lhe volvia: «¿Não seria melhor mudarmos de conversa? Flaubert, teimoso: «Seria, mas o sorvete de limão é digno de ser celebrado; enche-se a colher, isto faz como que uma pequena cúpula; esmaga-se brandamente entre a língua e o céu da bôca; isto derrete lentamente, frescamente, deliciosamente; isto banha a úvula, isto roça pelas amígdalas, isto desce até ao esófago, que não fica zangado, e cai no estômago que estoira de riso, tão contente está. Aqui para nós, faltam os sorvetes de limão no deserto do Qôseir!»

Maxime du Camp agarrou-o terrívelmente e esteve em quásis de o matar. Só depois de ter bebido a saciar-se, Flaubert o tomou nos braços e lhe disse: «Agradeço-te o não me teres quebrado a cabeça com um tiro de espingarda; no teu logar, não teria resistido».

E agora, contada a história, digam-me se, como Esaú, não trocariam a progenitura por um bock ou se não dispensariam a glória, a imortalidade, a academia, eu sei lá, por um dos tais sorvetes de limão do Tortoni? Porque, com franqueza, ¿qual de vós, ao menos a sonhar, não parafraseou a frase célebre de Augusto pedindo a Varo as suas legiões? Qual de vós não acordou uma noite destas em gritaria aflitiva, bradando:—José, José, traz-me um sorvete!

Os bastidores do Génio

Zola—Wagner—Gorki

a Eduardo Schwalbach.