Sienkiewicz, êsse forte e original Sienkiewicz, que a multidão consagrou pelo martírio da sua Lígia, o amor da sua Eunice e a linha orgulhosa e aristocrata do seu Petrónio, tem em tôda a sua obra um livro maior do que êsse Quo Vadis aclamado e do que êsse Dilúvio de que se fala tanto. Intitula-se, na tradução portuguesa, Sem Dogma.
Pois foi nesse livro, quási esquecido, que eu topei um dia com esta frase intensa: «todo o homem tem em si a sua tragédia». Se, na sua generalidade, ella é já precisamente humana, quando se aplica a artistas toma a sua expressão mais flagrante e mais real e, então, como certas palavras de que fala Daudet, que quando se pronunciam abrem um horizonte inteiro ao pensamento, visiona qualquer cousa do abismo dessas almas de que se conhece só a superfície.
Foi com a tragédia espantosa dêsse russo, que está agora prendendo a atenção do mundo—êsse Máximo Gorki que é tão grande como Tolstoi—que eu me dei a considerar a tragédia de todos os que lutam pela Arte, almas de luz e fel, que, como êle na sua passagem para a Glória, escondem uma odisseia de torturas, amassada de lágrimas e feita de ânsias e tormentos.
Essa tragédia dolorosa, indescritível, convulsa, misto de aromas e travores amargos, esperanças e desilusões, é a que transborda para as suas personagens, para as figuras que criaram e a que deram vida. Se uma figura às vezes atravessa um livro inteiro, um drama, uma peça inteira carregada de amargura—tanta que infunde piedade,—é que o seu autor trazia muita consigo. Se sofreu tanto que se impõe à nossa admiração, lá está por trás dela êsse homem transfigurado, às vezes grandioso e ridículo, que chora as suas lágrimas e sofre as suas dôres porque a tragédia das suas personagens é arrancada da sua própria tragédia. O autor é o seu primeiro actor. É a sua tragédia que êle ali estadeou e autopsía. Tôda a porção de ridículo, de mágua e piedade, de cólera e compaixão, todo êsse arco-íris de sentimento não é mais do que qualidades suas que êle transportou, corporizando-as no papel. Não é a vida alheia que êle vive. É a sua. Todos os dramas, tôdas as tragédias que êle patenteou nos seus romances, nas suas peças, nos seus quadros, na sua música, não foram mais que uma janela que êle abriu à alma para nos mostrar a sua tragédia.
¿Pois o Dr. Storkman do Inimigo do Povo, de Ibsen, não será a sua própria encarnação dentro do drama? ¿A luta que Storkman sustenta contra o egoísmo e a mesquinhez do seu meio não será a mesma que Ibsen sustentou, para conseguir impor a sua arte?
¿As outras figuras não serão figuras que êle sentiu à sua roda molestando-o,—vivendo-as por conseguinte? ¿Brand, Solness não serão ainda êle? Ibsen conheceu o insucesso, lutou, lutou e venceu. ¿A estranha conclusão a que êle chega no Inimigo do Povo não será a conclusão que cimentou das suas horas de odiado e guerreado?
¿Swit na sua obra não se identificou tão profundamente com ela que antes parecia tê-la vivido e representado? ¿A tragédia do célebre Kreissier de Hoffman não será por acaso a sua?
Em Flaubert a tragédia é tão intensa que chega a confessar que, na ocasião de transportar ao papel o envenenamento de M.ᵐᵉ Bovary, sentia na bôca o sabor do arsénico. Edmond Goncourt, no Journal, falando de seu irmão Jules, dá-nos uma prova flagrante disso, dizendo que à fôrça de se analisarem, de se estudarem e de se dissecarem, chegaram a uma sensibilidade super-aguda, que os fazia assim viver a vida das suas personagens.
¿Pois não arrastou dentro de si esse bárbaro Shakespeare a tragédia tormentosa do seu rei Lear, a loucura sonharenta dêsse Hamlet, a perfídia de Macbet e a candidez da sua Ofélia? ¿Não se descortina em tôda a obra dêsse melado e extraordinário Daudet a sua tragédia? ¿Dickens, Póe, Baudelaire, Verlaine e êsse Rollinat, cuja morte estranha ainda está na memória de todos, não se encarnavam na sua vida literária, não eram aquelas páginas, aqueles versos, aqueles dramas arrancados de si, motivados por essa super-intensidade de sentir análoga à dos Goncourts e que lhes faz ainda maior a sua tragédia?