Wagner é o herói da sua novela, O fim de um artista em Paris, como Gorki é o padeiro do seu conto dos Vagabundos. ¿Zola, essa forte organisação de génio e de trabalhador, não se retrata nesse belo e inolvidável conto Nantas? Não sentiu êle o seu Nantas? ¿Não viu Paris, faminto, correndo tôdas as portas à procura de emprêgo, sofrendo tôdas as recusas, sentindo inamovíveis aos seus desejos todos os corações, fechadas tôdas as almas, exactamente como o seu Nantas quando voltava à noite a casa, cambadas as botas, alma sêca, cheio de lama, tendo corrido dum extremo ao outro extremo todos os boulevards da cidade? E não lhe pôde êle dizer um dia, exactamente como Nantas—Agora és meu?!
Nantas, como Zola, é um moço que chega a Paris sem um ceitil na escudela e que o corre todo a procurar uma côdea, porque Nantas, exactamente como Zola, teve fome. Depois consegue triunfar, mercê duma incrível tenacidade, duma fôrça hercúlea. Chegara. Como Zola ainda!
Audran passou miséria. Maupassant, Daudet e Balzac conheceram a vida, o mais ingrata possível.
Chatterton, para fugir à miséria, pediu refúgio à morte. Bernardin de Saint Pierre não tinha uma camisa para vestir. A miséria de Milton e Homero é tão indubitável como o seu génio. Savage morreu de frio numa rua de Paris. Camões e Gilbert, como Verlaine, foram varar a carcaça à cama do hospital.
Villiers de l’Isle Adam e Barbey d’Aurevilly, Shakespeare e sabe Deus quantos outros, morreram na miséria. É esta miséria, eterna companheira dos artistas, que Wagner invoca no comêço da sua Visita a Beethoven. «¡Pobreza, dura miséria, companheira habitual do artista alemão! É a ti que, escrevendo estas memórias, te devo invocar. Quero celebrar-te, fiel companheira, que sempre me tens seguido a tôda a parte.»
Entre os portugueses, êsse génio esquecido de S. Miguel de Seide, sem estátuas, nem ruidosas consagrações, mas com uma obra maior do que isso tudo, ¿não sofreu essa angústia do Amor de Perdição? ¿A sua obra, essa gigântea Comédia humana, não foi dele que saiu, da sua tragédia? ¿De que porção enorme de lágrimas, de amor, de amarguras, de todo êsse misto sem nome, não seria feita a tragédia dêsse homem? Tão grande ela era que chegou para êle a dividir por uma centena de criaturas, que vergam muitas vezes sómente ao pêso da pequena parte que êle lhes quinhoou e que, comparadas à sua, não chegam, sequer, a ser uma lágrima no Atlântico.
¿As criações do nosso Eça não serão figuras que êle sofreu, que viveu e que o rodearam? Temos ainda Fialho de Almeida, o extraordinário colorista do nosso tempo. ¿Pois não é êle quem, na sua autobiografia, confessa que viveu alguns anos de prodígios económicos, alguns miseráveis cobres que não compensavam nem sequer o que para os apanhar tinha suado?
¿Veja-se, perscrute-se um quadro de Rembrandt ou de Sequeira, uma tela de Goya ou um esfumado de Assunção, uma partitura de Wagner ou uma sinfonia de Beethoven, e que tragédia não há em tudo isto, como aquela arte não é suada e sofrida, que soma de trabalho não representa?
¿Quantas horas de canseira para daguerreotipar um tipo, caricaturizar o grotesco duma figura, fazer o esquiço ou a silhouete apenas doutra; o aguardar dum beijo, o facies contorcido duma máscara, o estilo que sabe a carícias, a armures, a fofos dedos e amarrotadas sêdas? ¿Que soma de ânsia e de suor não representam as figuras convulsas de Dostoiewski, a beleza formidável dos ladrões e dos vagabundos de Gorki, o diavolismo de Barbey d’Aurevilly; em d’Annunzio, a torturada confissão do seu Episcopo; em Zola, o naturalismo da sua Naná e de Le Germinal, a delícia suprema de Le Rêve e a singularidade de La Bête Humaine; o esmerilhado feminil dêsse Gauthier, o espiritualismo de Maupassant e de Huysmans, a saudade voluptuosa de Pierre Loti, e a psicologia burguesa de Bourget?
O público de nada sabe. ¿Que lhe importa a maneira como e porque se fêz a arte? E aí está como às vezes passa despercebida a genesis de obras que as gerações que vierem, mais justiceiras talvez, hão-de apreciar devidamente.