A tragédia abraça todo o artista. Vai de Zacconi a Zola, como foi de Raphael a Guttenberg, ou de Sócrates a Platão, e encontra-se igualmente na freira portuguesa, essa Sóror Mariana apaixonada, e na alma dêsse pessimista violento e cruel que se chamou Schopenhauer.
O destino aproximou no génio estes três nomes: Gorki, Zola e Wagner, como os tinha aproximado na mesma odisseia de desventura. O músico alemão, o contista russo e o escritor francês identificam-se poderosamente.
Wagner, refugiado em França, chegou aos últimos apuros. Zola, quando veio para Paris, sem nome e sem dinheiro, passou uma vida aflitiva primeiro que o seu nome fôsse conhecido. Na rua Soufflet, numa hospedaria onde habitava e onde as rusgas da polícia eram freqùentes, viveu Zola uma vida espantosa, no dizer dum dos seus mais dedicados biógrafos. «Conheceu ali tôda a classe de privações. As suas comidas eram pão e café. Ou bem pão e dois soldos de queijo de Itália, ou pão e dois soldos de batatas. Algumas vezes sómente pão! Outras nem isso sequer! As roupas iam parar, umas após outras, ao monte da Piedade.»
Era então, como de Wagner, a pobreza a sua companheira habitual. Quando a última peça de vestimenta se havia sumido, aí estava Zola forçado a ficar em casa, envolto nos lençóis e na coberta. Nem por isso ia a pique a serenidade, e essa maneira de trajar denominava-a, pitorescamente, fazer de árabe, aludindo aos muitos árabes que se viam em Paris, envoltos nos seus albornoz brancos. ¿Quem sonharia ali o futuro autor da Obra, do Germinal, e o defensor heróico de Dreyfus? Mas Zola é o maior exemplo de tenacidade do mundo inteiro. Como êle triunfou todos o sabem. O seu nome é hoje tão ou mais universal que o dêsse vélho conde russo,—Tolstoi. Mas, mais do que êste, conseguiu desencadear sôbre si todo o aplauso e furor humanos, uma verdadeira tempestade de palmas e de ódios, de admirações e de rancores.
Gorki é perfeitamente a sua obra. Ela só trata de miseráveis, de vagabundos, de ladrões, criaturas sem lar e sem abrigo, sem um braço onde repousem a cabeça, nem uma bôca que lhes cicie palavras de confôrto e de resignação. Foi moço de bordo, padeiro, vagabundo, barqueiro, operário, guarda de linha, tudo quanto um homem pode ser. Correu meio universo, sentiu em erupção a sua dôr e a alheia e disso fêz uma obra. Plena de emoção, vibrante, e cheia de saudade, nenhuma outra, que me lembre, é tão intensa. Contou o que tinha sofrido e só isso lhe deu o triunfo, só isso lhe aureolou o nome da admiração universal. Triunfara! ¡Mas para quantos o triunfo chega tarde!
São assim os grandes espíritos. Quere êles se chamem Danton ou lord Byron, Homero ou Bonaparte, Pedro, o discípulo, ou Plínio, o sábio. Todos teem seu martírio e sua consolação; mas no que todos devem concordar é que a glória é uma cousa bem amarga!
A tortura do Estilo
Eça de Queiroz
A Afonso Lopes Vieira