O estilo é o calvário do escritor. Os profanos não calculam quanto de energia, de paciência espectante, de trabalho, custou um capítulo ou uma página, um período ou uma frase dêsses volumes, que são o passatempo da maioria e a idolatria das almas nascidas para o Belo. Essa espontaneidade que tanto admiramos e que tão celebrada é; êsses versos tão fluentes e apaixonados, que julgamos nascidos dum só jacto; essas páginas de fogo que parecem feitas dum só bloco; essas tiradas tão dramáticas que dir-se-iam brotadas dum só arranco, que trabalho louco não deram aos seus autores?! Charles Baudelaire diz que a inspiração «consiste em trabalhar todos os dias», e Baudelaire percebia disso. Ora a espontaneidade, ainda que isto pareça um paradoxo, é, como a inspiração, produto de muitos dias de trabalho, de muita fadiga, de muita noite perdida a burilar a forma, a perseguir a ideia, a dar à emoção a sua veste mais atraente e mais adequada.

O escritor não se pertence. Um dos seus mais tirânicos senhores é o Estilo. O Estilo é a grande tortura. O que esgota, que envelhece, o que arruina. Tudo exige esta dolorosa profissão. As nossas emoções e as nossas angústias, a nossa fantasia, a nossa paciência. O escritor, ao fim de certo tempo, não tem dôres nem emoções suas. A própria vida e todo o seu cortejo de acontecimentos passa a ser encarada como um motivo de arte. Tudo são motivos. É a deformação profissional, idêntica à do magistrado que só vê criminal, do médico que só vê morboso, do militar, do especialista. Para êle nada mais existe do que o assunto e depois do assunto a forma.

Para alguns a forma não é mais que a imprescindível maneira de exprimir o pensamento. Para outros, porêm, os mais artistas e os mais amados, a forma é objecto de longa tortura.

Foi êste o suplício que matou alguns dos mais notáveis homens de letras. Maupassant, em seguida a uma dessas cruciantes sessões, atirou uma navalha de barba às goelas, e foi morrer numa casa de saúde. E não só Maupassant. Há mais; mas para que citá-los? Sabe-se que a maioria dêstes obcecados da perfeição morre neurastenizada, louca ou esgotada.

¿O que amargurou a vida do nosso Eça, a de Balzac e a de tantos outros senão a forma? As correcções, que primeiro se fazem normalmente, a breve trecho tomam foros duma das mais obsidentes fobias.

Almas insatisfeitas, nunca uma linha lhes saíu das mãos sem que ela tivesse realisado a imaginada beleza, a perfeição sonhada. ¿E quantas vezes essa perfeição não vinha e êles se gastavam a persegui-la com uma paixão e um furor que tocava as fronteiras da loucura?

Entre os mártires do Estilo o nome de alguns tem ficado lendário. São as vestais da Beleza. A sua vida é uma odisseia de sofrimento, de abnegação e de sacrifício. Por isso as suas obras duram mais que a sua existência efémera e sofrida.

O mais torturado é Flaubert. Nunca nenhum escritor teve em tão alto grau a ânsia da perfeição, nem nunca a forma teve tão apaixonado admirador. ¿Porêm que tormento não é tôda a sua vida, que exemplo de martírio ela não representa? Para escrever as trinta páginas da Herodiade levou 900 horas e regista como um raro exemplo da sua fecundidade o ter escrito vinte páginas em um mês!!! «Escrever era pois para êle uma cousa temível, cheia de tormentos, de perigos, de fadigas», diz um dos seus biógrafos, o seu discípulo Guy de Maupassant. «Ia sentar-se à mesa com o mêdo e o desejo desta tarefa amada e torturante. Ali permanecia, durante horas, imóvel, encarniçado no seu trabalho assustador de colosso paciente e minucioso que construiria uma pirâmide com bolas de criança. Enterrado na sua poltrona de carvalho de alto espaldar, a cabeça encolhida entre os seus fortes ombros, olhava o papel com o seu ôlho azul, cuja pupila muito pequena parecia um grão negro sempre móvel»... «Depois punha-se a escrever, lentamente, parando incessantemente, recomeçando, riscando, sobrecarregando, enchendo as margens, traçando palavras dum lado a outro, escrevendo vinte páginas para acabar uma, e, sob o esfôrço penoso do seu pensamento, gemendo como um serrador de pranchas...» «E, a face túrgida, o pescoço congestionado, a fronte vermelha, tendendo os músculos como um atleta que luta, batia-se desesperadamente contra a ideia e a palavra, apreendendo-as, emparelhando-as a seu pesar, mantendo-as unidas duma maneira indissolúvel pelo poder da sua vontade, apertando o pensamento, subjugando-o pouco a pouco com uma fadiga e esforços sôbre-humanos, e engaiolando-o, como um animal cativo, numa forma sólida e precisa.»[1]

A sua correspondência está cheia de confissões amargas, as suas cartas, tôdas elas, teem alguma cousa da tortura que o persegue. Em tôdas se autobiografa e analisa, com uma resignação e uma amargura raro excedidas ou igualadas.

Um dia escreve a Maxime du Camp: «estou-me tornando duma dificuldade artística que me desola», para depois escrever a Madame X.: «Não sei como algumas vezes os braços me não caem de fadiga e a minha cabeça se não faz em papas. Levo uma vida áspera, deserta de todo o contentamento exterior, e em que não tenho nada para me manter senão uma espécie de raiva permanente que chora algumas vezes de impotência, mas que é contínua. Amo o meu trabalho com um amor frenético e pervertido como um asceta; o cilício raspa-me o ventre...»