Há uma carta em que, como um grito, se ergue[1] esta frase, que tudo em si resume, condensa e encerra: «a deplorável mania da análise esgota-me». E foi certo.

[1] Consulte o leitor o esplêndido e paciente trabalho do Dr. José de Magalhães, O Pessimismo no ponto de vista de psicologia mórbida, Lisboa, 1890. Tese apresentada e defendida perante a Escola Médica de Lisboa. É um grosso volume de 500 e tantas páginas repleto do ótima prosa e excelentes informações sôbre Leopardi, Schopenhauer, Flaubert, Baudelaire, Amiel, etc.

Foi afinal essa «deplorável mania» que fêz da sua vida um inferno e que mais depressa o levou desta para melhor.

Emquanto a Balzac ouçamos o que das provas dos seu livros diz êsse outro grande artista e grande torturado que se chamou Theophilo Gauthier: «Linhas, linhas que partem de tôdas as palavras para as margens à direita e à esquerda, para cima e para baixo, conduzindo intercalamentos, incisões, mudanças, supressões, aumentos. Ao cabo de algumas horas de trabalho, dir-se-ia, um fogo de artifício pintado por uma criança.

Do texto saem foguetes que estalam em palavras manuscritas. E são cruzes e sôbre-cruzes, estrêlas, sóis, cifras árabes e romanas, letras gregas e tôda a classe de sinais. Como as margens não chegam, cola bocados de papel com obreias e segue emendando, emendando sempre».

Balzac corrigia tudo nas provas. Chegava a 10.ª ou 12.ª para que emfim pudesse ser impressa a fôlha. Morreu aos 50 anos de excesso de trabalho, de noitadas e de café e escreveu noventa e sete volumes. «L’argent partout l’argent, l’argent toujours: ce fut le persécuteur et le tyran de sa vie», diz Taine. Pois a-pesar disso foi tão artista que conseguiu resistir a uma das cousas mais irresistíveis:—a falta de dinheiro. A necessidade não subalternizou o seu talento até à transigência. A sua obra o demonstra.

Mas Flaubert e Balzac ainda não são tudo. Temos Baudelaire, temos Gauthier, temos Annunzio, temos Maeterlinck, temos Valle-Inclan, temos os Goncourts.[1] Os Goncourts sobretudo. Gomez Carrillo, o intenso e interessante cronista espanhol escreve a propósito deles em um capítulo do seu livro El Modernismo, consagrado à Arte de trabajar la prosa artistica, o seguinte: «Flaubert mismo tenia ódios, pasiones, perezas, desesperanzas. Los Goncourts, no. Casi no fueran hombres. Fueran literatos. No adoraron sino las letras. Escribiron siempre con el mismo ardor, con la misma paciencia. Y lo que no fué literatura, belleza escrita, impresion estética, no les interesó nunca». Os Goncourts foram os chineses da prosa. Se alguêm os igualou em trabalho, nunca foram excedidos em paciência. Tôda a sua vida foi passada a polir frases, a burilar. Quando[2] um deles morreu, o outro teve a respeito do seu trabalho uma página frisante. É êle que tem a palavra: «Ainda o vejo lendo os quartos escritos em comum e que ao princípio não nos haviam satisfeito; vejo limá-los, poli-los durante dias inteiros com uma paciência irritável, mudando aqui um termo, acolá uma frase imprópria, mais alêm um rodeio impreciso; vejo-o fatigando-se e esgotando o cérebro em busca dessa perfeição tão difícil, tão impossível de alcançar com a nossa língua francesa, na expressão de sensações e de cousas modernas. Depois dêste trabalho ficava-se como morto, em um sofá. Só tinha vida para fumar. Quando escrevíamos, passávamos até uma semana sem sair, nem ver ninguêm. É êsse o único meio de fazer algo de bom».

[2] O leitor que conhecer queira o trabalho de correcção nos manuscritos dos grandes escritores consulte Le Travail du Style, por Antoine Albalat, (Colin ed.) Paris 1905. Aí encontrará interessantes capítulos sôbre Chateaubriand, Flaubert, Bossuet, Pascal, Rousseau, Buffon, Hugo, Balzac, Fénélon, T. Gauthier, George Sand, etc.

O livro é uma das cousas que mais trabalho dá. É preciso trabalhar, trabalhar muito, trabalhar sempre, para que êle tenha valor. Cada vez será mais difícil fazer um bom livro, um livro que fique. É necessário um enorme cabedal de conhecimentos, ilimitada paciência, faculdades próprias e, ainda mais, o quelque chose de Chénier. Passou a época dos artistas ignorantes. As multidões vivem absortas na sua luta pela vida e são avaras de atenção que não seja para a sua dôr ou para o seu egoísmo. A soma ignóbil de talento que dá direito a ser lido só se consegue por duplicada soma de trabalho. Por isso os que não teem qualidades para a luta que não entrem nela. Serão fatalmente esmagados.

Há, neste momento que estou escrevendo, em todo o globo, dez mil criaturas debruçadas sôbre as tiras de papel, scismando na maneira de ser grande. E pensar a gente que de todos êsses só vinte talvez, talvez nenhum, chegarão ao almejado êxito!!