Agora, como remate, ¿quereis saber como Gomez Carrillo, um dos mais torturados e pacientes apóstolos da ideal perfeição do estilo, defende a forma, proclamando mesmo a sua soberania sôbre a ideia?
«A Arte deve ser a Arte sem teorias, como a Beleza é a Beleza; como o Amor é o Amor; como a Vida é a Vida.
«Porêm isto não o podeis compreender vós outros, os pesados cultivadores da rotina; vós outros, os que creis que se escreve para dizer algo; vós outros, os que ignorais que uma página bela, não tem mais deveres que uma bela rosa; vós outros, que só considerais a frase como um veículo; vós outros os lamentáveis irreligiosos da grande religião do ritmo.»[3]
[3] E. Gomez Carrillo—El Modernismo. Madrid.
A religião do ritmo?! Eu sei. Tem no seu Flos Sanctorum os nomes de Flaubert, Balzac, dos Goncourts, Gauthier, de todos êsses torturados e até o do próprio Gomez Carrillo!!!
Eça de Queiroz foi um dos maiores atormentados do Estilo em Portugal. Cada página das suas representa um trabalho imenso, excessivo, extraordinário, e se considerarmos a sua obra em globo veremos que o escritor poderia ter deixado o dôbro dos volumes.
Os seus originais eram tão pacientemente trabalhados como os de Flaubert, as suas provas tão caprichosamente emendadas e anotadas como as de Balzac. A espontaneidade aparente do seu estilo era trabalhada, porque Eça era um escritor de gestação difícil e produção morosa e tardia.
Os seus íntimos conhecem bem isto e de-certo se não esqueceram daquelas manhãs em que êle, depois de almôço, e de ter enrolado um fornecimento de cigarros, uns cigarros duma propositada magreza ideal, se sentava para trabalhar; e roendo as unhas até ao sabugo, diante dos largos quadrados de papel a encher, os cigarros iam desaparecendo em fumo, as horas sumiam-se em nada e o papel permanecia branco, sem que uma linha da sua letra trémula fôsse rasgar aquela neve obsidente.
Quando a ideia acorria e os esquadrões de letras desfilavam, principiava então o verdadeiro labor. O rascunho breve se cobria de emendas. E, quando não ia fora, por inaproveitável, ficava uma cousa lastimosa. Era o caos. Uma confusão que só êle entendia e que a mais ninguêm aproveitava. Primeiro que daquela baralha de letras saísse algo que o satisfizesse, era uma seca!