A frase era construida de tôdas as maneiras possíveis e imagináveis: o vocábulo rebuscado, escolhido e modificado vezes sem conta. Quantas vezes sucedeu frases completas, mesmo já depois de compostas, irem à caixa, quando não períodos inteiros. E êle prosseguia na sua penosíssima tarefa, dando aqui e acolá um tom, sombreando ou diafanizando a luz, buscando acordâncias, regulando o conjunto, estudando a harmonia cantante e vibrada dos períodos, fugindo aos solavancos, para dar essa prosa que, à sua semelhança, é dandinante mas pobre, elegante mas vincada por muitas e multíplices torturas.
Essa ironia, o traço caricatural que é a linha mais caracteristica, mais celebrada e mais vibrante, a razão de ser da sua obra, vinha-lhe de longas fadigas. Depois essa fadiga mais acentuadamente nos aparece se considerarmos a pobreza do seu vocabulário e a trabalheira doida de com êle, com um número bastante restrito de termos e expressões, tirar cambiantes e efeitos. É mesmo essa pobreza de lexicon que lhe faz dar, quando se coteja a sua prosa com a prosa camilesca, um tom de subalternidade muito evidente.
Camilo já não tinha êsse labor. A sua prosa saía pronta. Fazia-se no cérebro e a sua trasladação ao papel era um trabalho puramente mecânico. Não emendava quási nada e possuia uma memória de ferro. E a propósito de memória, um caso curioso: Contava o Teixeira, tipógrafo da Cancela Vélha, que uma das vezes que se compunha uma obra de Camilo sucedeu perder-se um quarto de original. Isto significava, alêm da perda, o ter que aturar o génio de Camilo, demais tendo êle recomendado a máxima cautela com os extravios, visto não haver cópia. Compôs-se tudo a ver se aparecia, mas qual!... E não houve remédio senão contar o caso ao autor, que ficou furioso mas prometeu ligar o espaço e recompor aquilo de qualquer maneira. De memória recompôs o quarto e a impressão fêz-se. Passam-se anos, e numa arrumação de oficina, o quarto aparece. Confrontou-se por curiosidade e não se lhe achou diferença nem duma vírgula!...
Henrique Marques, o autor da Bibliografia Camiliana, que me referiu êste episódio, assegurou-me tambêm que as obras de Eça eram primitivamente compostas em tipo vélho, isto que lho confessara Genelioux, um dos sócios da casa editora. E só depois dele ter pôsto o torturado e custoso «Pode imprimir tendo todo o cuidado com as emendas», é que então definitivamente se compunham.
Não se julgue que êste tormento indefinível, esta ânsia da forma, que lhe fazia sempre duvidar do que estava feito, era só nos seus livros. Os seus artigos sofriam a mesma cousa. Os originais não são nada, ou quási nada do que o público conhece. Entre o original e o impresso existe por via de regra meia dúzia de provas fantásticas, riscadas, entrelinhadas por emendas, parágrafos inteiramente mutilados e substituidos, palavras alteradas, emendas feitas sôbre que colava bocadinhos de papel com outras emendas, uma cousa, emfim, que deve ter feito cabelos brancos a muito tipógrafo do seu tempo. Eu tive em meu poder as últimas provas do Adão e Eva no Paraizo[4] e pude ver bem o que assevero.[5]
[4] Prefácio ao Almanach Encyclopedico. A. M. Pereira. 1896—Pag. XXI-LI.
[5] Reproduzido um dos graneis, nos Serões (Janeiro de 1907 Art. Como trabalham os nossos escritores). Pertencem hoje ao jornalista e meu ilustre amigo José Sarmento, que amabilíssimamente as cedeu.
Um dos seus livros dá um exemplo bem flagrante da preocupação do estilo, que tão intensa é nele, e mostra a soma extraordinária de paciência e de trabalho que lhe custavam as suas páginas. Êsse livro é O Crime do Padre Amaro, que foi publicado de três maneiras diferentes. E de tôdas as três vezes o estilo é outro e a acção se modifica.
A primeira vez que O Crime do Padre Amaro foi publicado foi em 1875, na Revista Ocidental. Em 1876 publicava-se pela segunda vez, primeira em volume. (Tipografia Castro & Irmão). A esta edição, chamada DEFINITIVA, escreveu Eça um prólogo justificativo:
«O Crime do Padre Amaro foi escrito há quatro ou cinco anos, e desde essa época esteve esquecido entre os meus papeis—como um esboço informe e pouco aproveitável.