«Por circunstâncias que não são bastante interessantes para serem impressas—êste esboço de romance, em que a acção, os caracteres, e o estilo eram uma improvisação desleixada, foi publicado em 1875, nos primeiros fascículos da Revista Ocidental, sem alterações, sem correcções, conservando tôda a sua feição de esboço, e dum improviso.


«Hoje O Crime do Padre Amaro aparece em volume,—refundido e transformado. Deitou-se parte da vélha casa abaixo para erguer a casa nova. Muitos capítulos foram reconstruidos linha por linha; capítulos novos acrescentados; a acção modificada, e desenvolvida; os caracteres mais estudados, e completados; tôda a obra, emfim, mais trabalhada.

«Assim O Crime do Padre Amaro da Revista Ocidental era um rascunho, a edição provisória: o que hoje se publica é a obra acabada, a edição definitiva».

¿Calcularão, depois do que fica dito, que as correcções ficaram por aqui e que esta é como se assevera a edição definitiva? Pois não é. A edição de 1889, terceira, que tenho presente, avisa no frontispício que é «inteiramente refundida, recomposta, e diferente na forma e na acção da edição primitiva».[6] E ficou sendo esta a definitiva, porque a outra não escapara à grande fúria de correcções e ao crescente desejo de Perfeição, que foi a obcecação perpétua da vida do escritor.

[6] Entre a edição de 1876 e a de 1889 a que me refiro, há outra de 1880, já da Casa Chardron, que não pude ver. O confronto entre as três edições que tenho presentes,—a da Revista Ocidental, a de 1876 e a de 1889—basta porêm, para demonstrar o que pretendo.

Ao anunciar a edição de 1880 a casa editora, (senão o próprio Eça) dizia na Bibliografia Portuguesa e Estrangeira (Pôrto 1880-2.º ano n.º 1, pag. 19), que o autor do Crime refundira inteiramente o romance que era antigamente de 300 páginas e lhe entresachára 400 páginas novas. E mais diz: «É curioso neste trabalho seguir as influências que levaram o autor a refazer o seu livro: nos dois ou três primeiros capítulos vê-se que a sua intenção é simplesmente corrigir e aperfeiçoar o estilo e estudar mais profundamente os caracteres: nos dois capítulos seguintes começam a aparecer as scenas, os incidentes novos, mas o fundo ainda permanece o mesmo; é no sexto capitulo que vemos entrar o primeiro personagem novo; e daí por diante, então, o autor pondo de parte inteiramente o romance antigo, arrastado pela lógica do seu assunto, attraido pelos horizontes novos que êle lhe oferece, decide-se a escrever tudo de novo, como se tratasse dum livro novo... Êste novo livro parece todavia afastar-se dos processos do realismo e o autor como que procura criar unia escola nova individual, e sem ligações com as que existem.»

Vou pois cotejar três edições diferentes e assim se poderá fazer uma ideia do trabalho insano que só êste volume custou a Eça de Queiroz.

Na edição de 1875 o romance começa por uma descrição de paisagem ao esmorecer da tarde, um colóquio entre uma rapariguita vaqueira que leva o gado à bebida e um garotete, O Moriço; e pela scena da morte do pároco José Miguéis. O Moriço atira uma pedra à rapariga, acerta na vaca que foge fazendo espantar a égua que o padre montava e que vinha pela alameda. Fala Eça:

«Mas então a égua branca que vinha, recuou, deu um salto de repelão e o homem destribou-se, oscilou pesadamente e foi cair com um som baço sôbre as mós de moinho, onde ficou espapado de bruços, com os braços abertos, e um fio de sangue escuro, delgado, que escorria pela pedra, e caía gota a gota no chão.»