O pequeno atirou-se à estrada, gritando. Dois trabalhadores que passavam correram.
—Que é lá? que é lá? E um, forte e espadaúdo, ergueu o homem por debaixo dos braços: o corpo ficou todo pendente, descaído, e os fios de sangue escuro corriam-lhe pela cara.
—Queres tu ver!? Ai que é o sr. pároco!
E então tinham vindo os britadores da estrada, as mulheres que levam o saibro. O apontador das obras, um louro de boné de oleado e óculos azúis, amarrou-lhe um lenço em tôrno da testa. Um vélho apareceu logo, em mangas de camisa, todo esbaforido, com uma escada curta: estenderam-lhe em cima uma manta vélha e a tampa duma canastra e estiraram o corpo do pároco, hirto, com o seu ventre proeminente, a camisa ensangùentada, o rosto amarelo com nódoas roxas, os lábios cheios duma espuma sangùínea; e emquanto os dois homens o levavam como numa maca, quási correndo, os seus dois braços pendiam, com as mãos lívidas, felpudas e cheias de cabelos».
Levam o corpo «à botica ao pé da Sé» onde «o Carlos o boticário» depois de lhe picar «a veia com a lanceta» diagnostica uma apoplexia.
«Assim ficou vaga a paróquia da Sé», e assim termina o 1 capítulo que nas edições subseqùentes foi totalmente eliminado. Nestas o padre morre duma apoplexia sim, mas de madrugada, em seguida a «uma ceia enorme» que na edição de 1889 se diz ser de «peixe».
Na edição de 1876 (a definitiva) o romance começa:
«Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sangùíneo e grosso, que passava por um grande comilão. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica—que o detestava—costumava dizer, sempre que o via passear na Praça depois da sesta, com a cara afogueada de sangue, todo enfartado de indigestão:
—Lá anda a gibóia a esmoer. Um dia estoira!
Tinha com efeito estoirado depois duma ceia enorme. Ninguêm o lamentou—e foi pouca gente ao entêrro».