E na edição de 1889:
«Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sangùíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da botica—que o detestava—costumava dizer, sempre que o via saír depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
—Lá vai a gibóia esmoer. Um dia estoira!
Com efeito estoirou, depois duma ceia de peixe—à hora em que, defronte, na casa do dr. Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguêm o lamentou, e foi pouca gente ao seu entêrro».
É nesta última edição que acontece, como reminiscência à morte trágica do pároco, descrita na Revista Ocidental, o padre Natário cair da égua e quebrar uma perna.
Outro exemplo curiosamente demonstrativo do processo de trabalho do escritor e das torturas que êle passava antes de dar às suas criações a beleza, a elegância e a sobriedade artística que êle imaginava, é a figura do cónego Dias.
1875
«O cónego Dias não era simpático aos liberais de Leiria. Era um homem redondo e baixo, com um ventre saliente que lhe enchia a batina, as pernas curtas e esguias, e fortemente pousado nuns pés chatos, onde reluziam as fivelas: a cara era mole e cheia dum pálido baço, as olheiras papudas, e o beiço descaído e espêsso—e todo o seu aspecto, com um cabelinho curto grisalho, fazia pensar nas vélhas anedotas de frades lascivos, enfartados de pecado.»