Gente da Rua
Preço, 400 réis
Editores: SANTOS & VIEIRA
«Só agora, na publicação do 2.º milhar, me foi dado ensejo de ler a novela «Gente da rua», de Albino Forjaz de Sampayo. Sôbre três fulcros assenta êste trabalho:—talento, alma e observação; neles se firma para se impor e ser aureolado. Os capítulos não obedecem a uma disciplina marcada e sustentada; a sua acção torna-se por vezes independente e livre, mas convergem todos para o fim a que o autor quere chegar. Sente-se o cronista enfronhado no novelista a lutar por seus movimentos livres, e a querer desembaraçar-se das pióses do convencionalismo, para a irradiação dos seus vôos e pousar onde lhe aprouver. Desta independência de processo resulta, porêm, a beleza, que vem sempre da sinceridade, e que Forjaz de Sampayo enriquece com a sua prosa germinativa, cheia de frescura e desafogada.
A «Gente da rua» é tôda ela sentida. O autor ouviu e compreendeu as palpitações de tôdas aquelas almas, e tão bem as estremou, que nem por um momento se confundem. Cada uma tem o seu corpo, e quando postas em contacto, as chispas são diferentes. Cada figura surge nítida e perfeita; cada sentimento, exacto e lógico. Naquele sabbat de dôr, miséria e velhacaria, em que a flor-luz da ingenuidade brota do espírito simples de Silvino, com um tom branco de luar a adensar-se em mortalha, as personagens agitam-se sem se taparem umas às outras, o meio desenha-se com todo o seu carácter, o ambiente está perfeitamente definido. Não se lobriga uma contrafacção, não se percebe um exagêro, não se dá conta de uma fraqueza. É aquilo mesmo.
Ha idéas firmes, expressas com um forte poder sintetico:—o charuto caro, homenagem da Ordem, que Claudio vai fumando à saída do Govêrno Civil, é já um ferrete a marcar o traidor; o raciocínio de Silvino—«Diógenes buscara um homem, não buscara uma alma. E uma alma era tudo. Êle encontrara a sua. E satisfeito achava Diógenes parvo»—é um encanto de rama filosófica polvilhada de humorismo. «Sabes? Tu és o 48.»—atirado ao romântico e tímido Silvino pela Corália, na situação e posição em que o autor a coloca, constitúi uma clara e concisa nota dum impudor inconsciente.
Os destinos são todos determinados logo aos primeiros passos com que as personagens se nos dirigem, desde o conselheirismo que espera Claudio até o suicídio para onde Silvino desliza sem o menor solavanco. O da dengosa e olheirenta Elisa adivinha-se-lhe nas primeiras linhas que a apresentam, como o da mãe fica marcado quando se instala à cabeceira do hóspede, e o da pobre corista, irmã da do Pôrto, se vislumbra em terras do Brasil. E nem um só deixa de seguir em linha recta, mais ou menos acompanhado pelas peripécias da vida, mas sempre lógico e certo. O novelista não amarfanhou de mais aquelas almas no sofrimento; deixou-as apenas correr o seu destino, que não podia ser outro, e foi-lhes recolhendo o perfume ou a pestilência, conforme eram flores ou estrume. Não suavizou, nem carregou, não fêz poesia, nem ouriçou a realidade. Foi apenas sincero, natural e artista, e com estas fôrças, construiu a sua bela obra, que merece ser lida, porque não abundam as do seu quilate no nosso mercado literário; pelo contrário são raras.