Na 1.ª e 2.ª edição o tipógrafo com quem João Eduardo acamarada é um pulha. Homem que uma mulher sustenta, criatura reles, souteneur e madraço, bêbado e estúpido. Na edição de 1889 não. O tipógrafo é honesto, sério, chama-se Gustavo, escreve nos jornais uns artigos «de Política Estrangeira, onde introduzia frases poéticas e retumbantes, amaldiçoando Napoleão III, o czar e os opressores do povo, chorando a escravidão da Polónia e a miséria do proletário.» Sustenta mãe vélha e doente e é económico. O próprio tio Osório, taberneiro, o aprecia por êle ser «moço instruido e de pouca troça».

Gustavo tem mesmo as ideias de que «o trabalho é dever, o trabalho é virtude!» E despedindo-se vai para a tipografia. João Eduardo não se embriaga e não desafia já tôda a gente.

É tambêm só na edição de 1889 que entra no romance a figura decoral da Tótó. Vê-se que, se a acção do romance é na sua tessitura a mesma, muito ganhou o detalhe. Foi mesmo essa preocupação que tornou o volume encorpado, o estirou e lhe cerziu melhor as junturas da acção às vezes sem a coordenação que a técnica exige. O período ganhou em consistência. A frase é mais polida, mais vigorosa, visto que é mais breve, mais elegantemente concisa. E tambêm só aqui aparece a senhora Carlota, ama, e o marido, visto que na 1.ª e 2.ª edições é Amaro quem se desfaz do fardo, atirando-o ao rio. A figura episódica do abade Ferrão aparece tambêm nesta edição, que é onde Amaro nos sai poeta.

Como se vê, o romance foi todo feito de novo. Há capítulos alterados na ordem do seguimento antigo, outros cortados e outros desfigurados. Tudo foi mexido.

Todos os livros de Eça passaram por êste monotizante trabalho de correcção. Corrigir nestas condições é mais difícil do que criar, porque na criação há variedade. Para exemplificar o processo do escritor busquei O Crime do Padre Amaro, em que a sua maneira de trabalho mais se evidencía. O Crime do Padre Amaro mostra-o públicamente. Flaubert trabalhava os originais inúmeras vezes, Daudet recompôs a Sapho uma porção delas. Mas êsse trabalho ficava desconhecido do grande público e é hoje amorosamente estudado sôbre os originais. O volume, quando saía para a impressão, saía pronto. O Crime do Padre Amaro não. Saíu duas vezes para o público, provisóriamente. Calcule-se em dois borrões para cada uma das edições citadas e teremos que o livro foi escrito seis vezes. Se existissem os originais e as provas, que são de tanto ou mais interêsse que o manuscrito, seria isso um estudo curioso, estudo que outrem fará se quiser e de que isto são simples apontamentos. Todavia mostram bem o esfôrço que custou ao escritor a sua obra e parecem justificar a frase habitual de Chateaubriand «de que o talento não é senão uma grande paciência». E, como se vê, a paciência contribuiu muito para o talento de Eça.

É preciso trabalhar, trabalhar muito para deixar uma boa página. Um dos que o conseguiu foi Flaubert. Mas não devemos esquecer que Flaubert escreveu um dia a Maxime du Camp: «Morro de cansaço. Escrevi êste mês vinte páginas, o que é enorme para mim».

FIM

Índice

PÁG.
Dedicatória [5]
Crónicas imorais [7]
Juízo do ano [11]
Artistas [17]
O Jettatore [25]
Os mineiros [33]
Um sábio português [41]
Emigrantes [49]
Gabriéllo d’Annunzio [55]
Um poema [63]
Oriente [71]
As flores [79]
Quanto custa uma mulher? [87]
Teatro nacional [95]
D. João da Câmara [105]
Arte de Reinar [113]
Religiões [121]
Gomes Leal [129]
Naufrágios [137]
Goron [145]
Mercedes Blasco [153]
A Deliciosa Mentira [161]
Estátuas e comendas [169]
A tristeza profissional [177]
A morte [185]
Poetas [193]
O Tempo [201]
A decadência do jornalismo em França [209]
O Carnaval [217]
Academias [225]
O passado [233]
O calor [241]
Os bastidores do Génio—Zola—Wagner—Gorki [249]
A tortura do Estilo—Eça de Queiroz [259]

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO