Ha excepções, mas muito raras.
Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba).
Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.
Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22 centìmetros de comprido.
As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares do que espheras.
As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.
O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da mão.
Talvez haja reparo em eu escrever pello de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême, que tem o pello mais longo, differe muito da lã.
Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no Bihé, de pequeno corpo.
Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril de 1878.
As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura, desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e scintillante, que ellas só t[~e]m nas regiões tropicaes.
Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda no Bihé!
Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha.
Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.
Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.
Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas, não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro.
Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em àgua, que me servia de pão.
Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.
A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O mucano aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.
O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade.
Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por braços nus até ao cotovelo.
O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?"
O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.
Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.
Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio dos felizes resultados da minha tentativa.
Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.
Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto encontrei uma colecção completa da Gazeta de Portugal, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se.
Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro quando tinha uns duzentos kilogrammas.
Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.
O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era facil.
A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu haver.
Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma pequena porção, que me fez a carga de um homem.
Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.
| 1. Folle. 2. Folle preparado para servir. 3. Bocal de barro em contacto com a chama. 4. Tenaz. 5. Martello grante. 6. Um bocado de cano de espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças. 7. Martello pequeno. 8. Panellas de cozinha. 9. Panella para capata. 10. Tambores dos batúques. |
Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.
| Figura 25A. Quinda, cesta de palha que não deixa passar a àgua. | Figura 25B. Peneiro para seccar a Farinha (fuba). |
| Figura 25C. Peneiro de peneirar. | Figura 25D. Cabaça para tirar Àgua a capata. |
Figura 26.--Uma Casquilha do Bihé.
E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.
Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.
O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo não é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos, sam pèssima moeda.
Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam bôa moeda.
Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no mesmo caso.
Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as fizér.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os admira é verem um bom atirador.
Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objecto das conversações por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.
Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o precioso licor.
Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.
Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.
O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por Pereira de Mello e Silva Porto.
Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a meu respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Mello.
Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula.
Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os.
Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.
O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais noticia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á perdição.
Era um golpe terrivel.
Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais.
Quasi desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ànimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço.
¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me?
¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior?
¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"
¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado.
Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que antes.
Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar n'ella.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.
Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.
Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha de milho.