Figura 139.--Betjuanas. (De uma photographia de M^{r.} Gross.)
CAPÌTULO VIII.
O FIM DA VIAGEM.
Ha ali formosos jardins e mimosissimas flôres, sendo as damas de Natal muito dadas á floricultura, e concorrendo muitas vêzes a certames nas exposições locaes. Tem um magnìfico parque, onde á tarde circulam muitas e brilhantes equipagens.
No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotéis estavam cheios de militares, os quartéis regorgitavam de soldados, e muitos acampavam fora d'elles. No Royal Hotel, que diziam ser o melhor, o serviço era mao, devido isso talvez ao excesso de hòspedes que ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos prêços de tudo, e isso era consequencia de o govêrno pagar sem regatear.
O estabelecimento Cathòlico de Maritzburg é muito importante, e tido com a maior ordem, goza de grande crèdito na colonia.
O Consul Portuguez, M^{r.} Snell, escreveu-me, que tinha chegado o paquête 'Danúbio', da Union Steamship Company, que devia seguir para Moçambique e Zanzibar no dia 19 de Abril.
Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas despedidas aos amigos que ali deixava.
Dirigi-me ao Royal Hotel, e não pude obter um quarto. Então M^{r.} Snell tratou de me arranjar alojamento, e pôde obter um quarto de banho no Club de Durban, onde me fizéram uma cama no chão.
Os officiaes que chegavam, cada dia, não tendo onde se metter, armavam barracas de campanha nos pàteos e nas ruas em volta dos hotéis e do Club.
Por o mesmo paquête em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o infeliz prìncipe Napoleão, que tão caro devia pagar a sua ousadia e coragem. Conheci-o, e não pude deixar de me afeiçoar, no curto convìvio que tivémos, a esse joven sympàthico, intelligente e illustrado, a quem uma morte ingloria e estùpida cortou tão prematuramente uma existencia brilhante.
Quantas vêzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida Africana, "de desconfiar em Àfrica de tôdos e de tudo, até que provas irrefutaveis não nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa."
A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua coragem leonina, e esse descuido peculiar á juventude cheia de illusões e crenças, causáram a sua perda. Só quem o não conheceu o não lastimará; que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attracção indefinivel para captar tôdos os corações.
Estranho á polìtica da França, n'estas poucas linhas lavro um testemunho de saudade ao mancêbo desterrado que foi meu amigo, e não ao prìncipe que representava um principio, e faço-o tanto mais desassombradamente, que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande catàstrophe.
Nas vèsperas da partida, travei relações com M^{r.} e Madame Du Val, e recebi d'elles muitos favôres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava com os meus prêtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia conduzir ao Danubio, ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma pequena enseada, fundeando os grandes vapôres na costa limpa.
O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao Danubio.
M^{r.} e Madame Du Val iam comigo, porque M^{r.} Du Val, chefe da Companhia Hollandeza em Àfrica Oriental, ia passar em revista as feitorias de Moçambique.
A passagem das bagagens do pequeno vapor para o Danubio foi difficil, pêlo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e desfeita entre os dois vapôres.
Caixa e conteúdo fôram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo um escalér, e pôde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha e que fluctuavam, outras afundáram e estavam irremediavelmente perdidas.
Deixámos Durban, e não foi sem uma sensação de infinito prazer que eu senti o espadanar das àguas em tôrno do èlice poderoso, que a cada rotação me impellia no caminho da Patria.
Em Lourenço Marques foi pouco o tempo para receber favôres, e a maior parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca.
A bordo, o Commandante Draper não cessava de me obsequiar.
Cheguei finalmente a Moçambique, onde fui encontrar tôdas as autoridades na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes, estavam abrasados em febre.
Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua espôsa, prostrada pêla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais terminantes ordens para facilitar o meu regresso á Patria com a gente que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favôres.
Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel Torrezão, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val.
Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley, mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vèspera da minha chegada.
O D^{or.} Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos fôram os favôres que recebi d'elle e de sua espôsa.
Tôdos os Europêos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os officiaes da guarnição do London.
O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden só partiria dentro de oito dias, não consentio que eu fôsse para terra, dizendo-me (com razão) que as hospedarias ali eram pèssimas, e por isso fiquei vivendo a bôrdo, sempre com um escalér ás minhas ordens.
Travei ali relações com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu companheiro de viagem para a Europa.
Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por novos favôres de M^{r.} Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar n'um pequeno vapôr, do British India, onde recebi muitos favôres do seu Commandante Allen.
Em Aden, como a carreira do British India tivesse uma demora de oito dias, eu e Widmar tomámos passagem a bôrdo de um vapor da Lloyd Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para o Cairo.
Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por mim cuidados de um velho amigo.
Ainda convalescente, fui ás piràmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e o Zambeze; não queria voltar á Europa, sem saudar a velho Nilo; e do alto do sarcòphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado ha quatro mil annos pêlo orgulho dos Pharaós, eu vi-o correr plàcido e sereno, banhando as ruinas da outrora sobêrba Memphis.
Pouco depois, deixava o Cairo, sobêrba e ardente, cidade de ouro e de miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favôres.
O Conde e a Condêssa de Caprara acima de tôdos, fizéram-me taes obsèquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias.
O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez offerecimentos na vèspera da minha partida, quando soube que o Crédit Lyonnais de Paris me tinha aberto um crèdito no Egypto, com dinheiro meu, mandado de Lisboa pêlo meu amigo Luciano Cordeiro.
Esquècia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govêrno de Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bôlça de Widmar e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas que se me offereciam, e que não pensavam que eu fôsse um cavalheiro de industria; porque não ignoravam que Portugal tivesse enviado á Àfrica a expedição de 1877, e que d'essa expedição o Major Serpa Pinto voltava á Europa pêlo mar Ìndico.
Segui de Alexandria para Nàpoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde fui altamente obsequiado pêlo nosso Consul, o Barão de Mendonça.
A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vêzes pensei não mais ver.
Na vèspera haviam chegado os meus prêtos, e o meu papagaio.
Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos da expedição Portugueza ao interior da Àfrica Austral, em 1877.
CONCLUSÃO.
A = (100 - H)(284.95 + 3.1 {A/1000}).
A = 18,382 log {760/B} + {1/6,366,200} (18,382 log {760/B})^2,
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