A Voz.
É tão suave ess'hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia; Se em alcantís marinhos Nas rochas assentado, O trovador medita, Em sonhos enleiado! O mar azul se encrespa Co' a vespertina brisa, E no casal da serra A luz já se divisa. E tudo em roda cala, Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso, Quebrando em furna algosa. Alli folga o poeta Nos desvarios seus; E nessa paz que o cerca Bemdiz a mão de Deus. Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente; E sóbe, e cresce, e immensa, Nos ceus negra fluctua, E o vento das procellas Já varre a fraga nua. Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor: Do vagalhão nas ribas Expira o vão furor. E do poeta a fronte Cubriu véu de tristesa: Partiu-se á luz do raio Seu hymno á naturesa. Feia alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento. Era blasphema idéa, Que triumphava em fim: Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim: "Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas; E o fremito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga; Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso, Typo da vida do homem, É do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida. Se ergueste a Deus um hymno Em dia de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura, Seu nome não maldigas, Quando se turba o mar: No Deus, que é pae, confia, Do raio ao scintilar. Elle o mandou:--a causa Disso o universo ignora-- E mudo está:--seu nume, Como o universo, adora!"
Oh sim: torva blasphemia Não manchará seu canto! Brama procella embora; Pese sobre elle o espanto; Que de su' harpa os hymnos Derramará o bardo, Aos pés de Deus, qual oleo De recendente nardo.
Leça da Palmeira 1835
A Victoria e a Piedade.
A Victoria e a Piedade.
Eu nunca fiz soar meu canto humilde Nos paços dos senhores: Eu jámais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se Á porta do abastado, O qual com ouro paga a alhêa infamia, O cantico aviltado. O filho das canções, da gloria o bardo Não manchou o alaude; O ingenho seu ha consagrado á Patria; Seu canto é da virtude. Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste Nos dias de afflicção, Qual solto vento em areal deserto, Livres teus cantos são. No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente: Pela terra natal, na flor dos dias, Eu suspirei ausente. O solo do desterro, ah, quanto ingrato É para o foragido; Ennevoado o ceu; arido o prado; O rio adormecido! Eu lá chorei, na idade da esperança, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu;--e antes de tempo Ergueu hymnos á morte. E que infeliz ha hi, a quem não ria Da sepultura a imagem? Alli é que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem. Mas, quando o pranto me queimava as faces, O pranto da saudade, Deus escutou dos profugos as preces, Teve de nós piedade. Armas!--bradaram do desterro os filhos: Bem-disse-os o Senhor: E vencer ou morrer juncto com elles Jurou o trovador. Pelas vagas do mar correndo affoutos, Á gloria nos votámos; E, nos campos nataes, pendão invicto Os livres, nós, plantámos. Fanatismo, ignorancia, odio fraterno; De fogo céus toldados; A fome, a peste, o mar avaro, as hostes De innumeros soldados; Um futuro sem raio de esperança; Ouvir o vão lamento De infante, a vida incerta conduzido Por mão do soffrimento; Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo Em regelado inverno; Eis contra o que, por mezes de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas constancia e valor tudo ha vencido: Ganhou-se eterna gloria; E dos tyrannos apesar, colhemos Os louros da victoria. Teça-se, pois, o cantico subido Aos fortes vencedores. Livres somos!--Sumiram-se qual fumo Da Patria os oppressores. Sobre essa encosta, sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou, por mais de um anno, Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; Pedir inspirações A amiga noite, o genio que me ensina Suavissimas canções. Reina em silencio a lua, o mar não brame, Os ventos nem bafejam..... Mas que ossadas são estas, que na encosta, Aqui e alli, alvejam? Esses?--São ossos vís, que não resguarda O sussurrar da gloria; Herdeiros só das maldicções das gentes, Das maldicções da historia: São os restos dos homens, que luctaram, Valentes no seu crime, Contra nós, contra a mão da Providencia, Que os maus derruba e opprime. Mas quem porá padrão que aos evos conte, Seus feitos derradeiros! Quem dirá--aqui dormem portuguezes; Aqui dormem guerreiros--? Quem virá na alta noite erguer por elles Resas de salvação? Quem ousará pedir para o vencido Um ai de compaixão? Virão, acaso, alevantar seus filhos O pranto solitario, Pelo que lhes legou de avós o nome Involto em vil sudario? Será a esposa, que lhes cubra as cinzas Com oração piedosa? Não!--nenhuma ousará dizer, chorando, Eu fui do escravo esposa. Será a amante?--Em tremedaes a pura Rosa nascer não sabe: A mais bella paixão não é de servos; Vil goso só lhes cabe. De mãe o amor tentára, unicamente, Sobre os corpos gelados, Vir chorar a esperança, em flor colhida, De seus annos cansados: Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito Do rude velador; Da noite os medos; de armas, já sem donos, Nas trévas o esplendor. Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeam juncto a mim? Quem seu perdão da Patria implorar ousa, Seu perdão de Elohim? Eu:--o christão:--o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que não sei cuspir o fel da affronta Sobre uma ossada nua. O misero pastor desceu dos montes, Abandonando o gado, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por phariseus chamado. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, não nós, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, A virtude insultando, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre os restos da Patria, tu bem creste Folgar de nosso mal, E, sobre as cinzas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração insipiente, Disseste--Deus não ha!-- Elle existe, malvado!--e nós vencemos: Treme.... que tempo é já. Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes. Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes! Perdão--oh vencedores! Não insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. Que resta aos desditosos?--Somno eterno, Da Patria a maldicção, A justiça de Deus, tremenda, ignota, E a humana execração. Mas nós, saibamos esquecer os odios De guerra lamentavel; É generoso o forte, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdão para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle é mudo:--pedi-lo já não póde; O da-lo a nós deixou. Da lei a espada puna o criminoso, Que vê a luz dos céus: O que legou á terra o pó da terra, Julga-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa inteira victoria, Não precisaes do trovador o canto; Vosso nome é da historia. Eu do vencido consolei a sombra; Eu perdoei por vós. Filhos da infamia os desgraçados eram; Ricos de gloria nós.
Porto--Agosto de 1833
NOTA.
Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia dos precedentes versos, pertence a um livro já todo escripto no entendimento, mas de que só alguns capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo. Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de D. Branca, do Camões, de João Minimo; o Sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riquesa poetica. Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais é que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de regra, tanto como poesia de politicos.