Fragmento.

O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e longo da sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os dentes me rangeram de cólera, e a lagryma envergonhada de soldado me escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres dos vencidos, que ainda por ahi jaziam; porém pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de expirarem, as idéas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Então oreí a Deus por elles: antes de irmão de armas eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as affrontas da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão parecia me consolava da perda de tantos e tão valentes amigos. Havia nessa idéa torrentes de poesia; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor das minhas pobres canções.

(Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap....)

A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.

TERCEIRA SERIE.