"Morta!—exclamou o infante com um gesto de horror.—Não, não,
Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como …"

"Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:—atalhou Pacheco—dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d'isso, porque eu posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue! Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe! Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa."

D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada; mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem lá comsigo não se deixar cahir no fojo.

"Far-se-ha como apontaes:—disse elle falando com Diogo Lopes—mas se os homens d'armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem do castello…"

"Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no meio da revolta?—Podes estar socegado, que não te certifiquei d'isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d'ámanhan."

Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna, e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do ferro, e repetindo em voz baixa:—"Não me precipitarei no fojo!"

Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára, chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da cathedral.

[1] Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P. 1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado para si o povo miudo já d'antes e com muita seriedade. Em um documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol. 42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.

[2] Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr. Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d'um titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371 (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.