O Beguino.

Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo, miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo a grandes crimes[1], ainda vê na extermidade delle umas ruinas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta janella são tudo o que resta dos antigos paços d'apar S. Martinho, igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente pelos nomes de paços d'elrei, paços dos infantes, paços da moeda, paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se, transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos, nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida! Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque jazem ahi!

Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no capítulo antecedente, essa janella dos paços d'elrei era a unica aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído. De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através dos corredores e aposentos do paço.

Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas.

Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio: mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto, d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada.

"Aproxima-te, beguino!"—disse com voz trémula elrei; porque era elrei D. Fernando o homem que se assentára.

Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

"Que ha de novo?"—perguntou elrei.

"O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu trago!"

"Fala, fala, beguino!—acudiu elrei, estendendo a mão convulsa para o ichacorvos.