"É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paço será accommettido. Pretendem matar…"
"Mentes, beguino!—gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes da Ásia.—Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me! Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles."
"Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida:—replicou o ichacorvos com ar contrito.—Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá tres credos, na taberna de Folco Taca."
"Miseraveis!—bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco
da sua amante restituira por um momento a energia.—Miseraveis!
Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão.
Quem ousa ordenar tal cousa?"
"Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz estava tambem com elles:"—respondeu Fr. Roy.
O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.
"Velho assassino!—exclamou D. Fernando—cubriste de luto eterno o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"
O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:
"Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."
"Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!—gritou D. Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos joelhos, com um chôro convulso.—Que te fiz eu para me tractares tão cruelmente?"