"D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede; deixa-o reinar."
"Tens razão, Leonor!—disse D. Fernando, enxugando as lagrymas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. —Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae. Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d'armas e bésteiros do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada."
D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy estava immovel diante delle.
"João Lourenço Bubal—disse o espia sem se alterar—é dos revoltosos.
Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão
Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte
dos homens d'armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de
Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam…."
"Cal-te, beguino!"—gritou elrei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a bôca.
O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.
"… A adultera:—proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio.
"Beguino!—atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva—melhor fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."
"Mas que faremos!?—murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.
"Havia ainda ha pouco tres expedientes,—respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade—combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!… Porque não o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"