"Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:—rei de Portugal, obedece á força?—Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:—desamae!—Elle ousa já dize-lo a seu rei e senhor… Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim!"

"Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?—disse D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio olhava espantado para ella.

"Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subirás a elle."

Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

"Então resta o fugir."

"Fugir!"—exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.

"Seja, pois, assim! Fujamos:"—murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão ao algoz.

D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu.

"Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."