Era um dia á tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras principiavam do lado de léste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lança, volvia olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste: depois sacudia a cabeça com um signal negativo, inclinando-se para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o qual só era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas ao da lança, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabeça.

"Al-barr,"—disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos indicavam uma grande superioridade sobre os outros—"parece que o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de Zarkosta[2] a sua ambição d'independencia; e até os partidários de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pae, não podem acreditar que Abdallah realise as promessas que me induziste a fazer-lhes."

"Amir-al-melek[3],"—replicou Al-barr—"ainda não é tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto. Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram elles pela sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e da entrada dos christãos chegariam hoje a este logar aprazado, antes do anoitocer?"

"Juraram—respondeu Al-athar—; mas que fé merecem homens que não duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa, e além d'isso de abrir o caminho aos infiéis para derramarem o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem as esperanças que pões nos tens occultos alliados. Oxalá não tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e não houvera de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu irmão!"

Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quizesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixões oppostas. Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou:

"Se os mensageiros dos revoltosos não chegarem até o anoitecer, não falemos mais n'isso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido successor do kalifado: eu próprio o acceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh[5] que não soubeste acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presença dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio que alimentas contra elles, o mais terrível odio deste mundo, o do amor próprio offendido."

Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de colera.

"Pagas mal, Abdallah,—disse elle com a voz presa garganta—os riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais bello e poderoso império do Islam. Pagas com allusões affrontosas aos que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma corôa. És filho de teu pae! … Não importa. Só te direi que é já tarde para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspiração sabida de tantos ficará occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo é que has-de encontrar o abysmo!"

No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o príncipe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-hakem. Um grito, porém, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago um vulto saíra do cemitério, galgára o cabeço, e se aproximára sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz quasi lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo, e arrancaram as espadas.

Ao ver aquelle movimento, o que chegára não fez mais do que estender para elles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: então as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica tivesse adormecido os braços dos quairo sarracenos. Al-barr exclamára:—"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!…"