"Muulin o peccador:—interrompeu o novo personagem—Muulin, o pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina ás vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição! Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balança dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A ti o throno; a elle o sepulchro. Está escripto. Vae; não pares na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kortheba. Entra no teu palacio Merwan; é o palacio dos kalifas da tua dynastia. Não foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9] da torre. Ahi acharás cartas do kaid de Chantarya, e dellas verás que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam ao que te juraram!"

"Sancto fakih—replicou Abdallab, crédulo como todos os musulmanos daquelles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado—creio o que dizes, porque nada para ti é occulto. O passado, o presente, o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me o triumpho; mas o perdão do crime podes tu assegura-lo?"

"Verme, que te crês livre!—atalhou com voz solemne o fakih.—Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frageis instrumentos nas mãos do destino, e que te crês auctor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ella acaso a Deus perdão do seu peccado? Atomo varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar, pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdão para o orgulho insensato!"

Fez então uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do fakih fascinava. Coando pelos lábios as syllabas, elle repeliu tres vezes:

"Para Merwan!"

Abdallah abaixou a cabeça, e partiu vagarosamente, sem olhar para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou só.

Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis, porém, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais de um milhão de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era um mysterio a sua patria, a sua raça, donde viera. Passava a vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem. Raras vezes se via que não fosse lavado em lagrymas. Fugia das mulheres como de um objecto de horror. O que, porém, o tornava geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque as suas predicções recahiam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christãos faziam alguma correria, ou destruiam alguma povoação, elle annunciava publicamente o successo nas praças de Cordova: qualquer membro da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio, ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante ás vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes. O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto popular a sua presença bastava para tudo caír em mortal silencio. A imaginação exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto como o islamismo os concebia; isto é, um homem cujas palavras e aspecto gelavam de terror.

Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em voz quasi imperceptivel:

"Salvaste-me!"

O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso, murmurou: