"Quem é eu?—replicou a voz.

"Honrado D. Judas, é Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a elrei ou á mui excellente senhora D. Leonor, para negocio de vulto."

"Abre, D. Judas, abre!"—disse outra voz, que pelo metal parecia feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada escaçamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões de ferro, a qual dava para uma especie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrára na casa das arcas da corôa—do recabedo do regno. As duas personagens que ahi estavam, afóra a que abríra a porta, eram D. Fernando e D. Leonor. Elrei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pello[2].

D. Leonor, tambem em pé por detraz d'elrei, olhava attentamente para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mór D. Judas, grande affeiçoado de D. Leonor e valido d'elrei. O judeu apenas voltára a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recem-chegado, tornára immediatamente para ao pé da arca a que elrei estava encostado, e proseguíra a vehemente conversação, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvíra ao aproximar-se…

"Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel thesoureiro vos póde apurar neste momento, respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado, e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pogeia."

Elrei não o escutava. Apenas Fr. Roy entrára, D. Leonor se havia encaminhado para o ichacorvos, e, lançando-lhe um olhar escrutador, lhe perguntára com visível anciedade:

"Beguino, a que voltaste aqui?"

"A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez tenha já corrido sangue no rocío de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores e fidalgos da casa e valia d'elrei."