Fôra á palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender á voz esganiçada do thesoureiro-mór, que continuava em tom de lamentação:

"Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço, e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos d'Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d'Alemdouro, que são em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?[3]"

"Sangue, dizes tu, beguino?—exclamou elrei—Oh, que é muito!
A quem se atreveram assim esses populares maldictos?"

"Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Fernão Vasques; mui grande numero de bésteiros, e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram os traidores atroavam a praça."

"Que me dêem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o meu estoque francez:—gritou D. Fernando escumando de colera.—Eu irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou acabarei ao pé delles. Pagens! onde está o meu donzel d'armas?"

"O teu donzel d'armas, rei D. Fernando,—interrompeu com voz pausada e firme D. Leonor—segue com os outros pagens caminho de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui só tens a mula de teu corpo[4] para seguires jornada."

"Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei despedaçar pelos peões desta cidade abominavel? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando ainda se não erguêra para te coroar rainha."

"Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te delle, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão deixar entregue á sua sorte o nobre D. João Affonso e os senhores que são com elle; mas não te esqueça que se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n'uma cidade revolta? Os homens d'armas do teu castello quebraram seu preito, e tumultuam na praça: muitos de teus ricos homens estão conjurados contra ti: teu proprio irmão o está. Partir! partir! Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperança está no partir breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não podermos salvar aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expôr á furia de homens refeces e crús, para esconder nossa fuga… fuga; que é o seu nome!"

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiçados da adultera, e a afflicção e o temor comprimidos n'uma lagryma que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas que derramára na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçára, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida: