O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas, e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão, lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto, expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre, e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral, semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta, em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos, quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um amor tenaz d'independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio, até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas[1]. Na rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros[2], como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escaceára mercês[3]. Depois em folgares e caçadas vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero, agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia de festa o seu mui canonico burgo[4].

A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra; ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos. Adiante d'elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura dos noivos[6].

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei, mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança de opinião.

Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que, ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina; no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte, nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d'elrei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor Telles.