A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem: após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos, as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole[7].

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo assistir ás bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma, e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas: elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

"Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio: como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres d'entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.[8]"

O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao volver d'olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do seu capital inimigo.

Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem á que representava um papel analogo ao daquella desventurada, salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle, naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos, e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.