"De joelhos, dom traidor!—gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dous degraus do estrado.—De joelhos, vil parceiro de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"
D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos: achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se na voragem.
"Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas.
Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no
throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso
Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?"
O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.
Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.
Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um só hiato, fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia: brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:—para ti as penas eternas.
O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.
Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo, e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como se dissesse: aqui!
Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lagrimas:
"Senhor! que é vosso irmão!"