"É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho!
Elle já não o é!"
Á palavra—mentes!—um relampago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:
"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."
Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.
Por uma reflexão instantânea a hyena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.
Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d'elrei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.
Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com voz pausada, mas trémula e presa, disse:
"Que esse malaventurado sáia d'ante mim."
O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o animo de D. Diniz, cujo coração antes d'isso parecêra de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirára.
Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende saiu do aposento.