Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.
D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o collo formoso por mal contido suspiro.
"Coração compadecido e generoso!—pensou lá comsigo o alferes-mór, que havia pouco a tractára pela primeira vez.
"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!—pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com violencia.
"Não te afllijas, Leonor:—disse D. Fernando, apertando-a ao peito.—Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!"
Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.
O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que era pesado e mortal, que resfriava todos os corações.
Á meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro: à pôpa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:
Mortos me sào padre e madre:
Eu tamanino fiquei.
Irmãos meus mal me quizeram:
Eu mal não lhes quererei.
Vou-me correr esse mundo:
Sabe Deus se o correrei!
A alma deixo-a cá presa;
O corpo só levarei.