De meus avós nos solares
Nasci: dous dias passei:
Meus irmãos, nada vos tenho,
Senão o nome que herdei.

Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos cavalleiros o déra.

Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois continuaram:

Se fui rico, ora sou pobre:
Choro hoje, se já folguei:
Villas troquei por desvios:
Muito fui: nada serei.

Sem padre, madre, ou irmãos,
A quem me soccorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus:
Senhor Jesus me accorrei!

Um gemido mnis angustiado, que saíu involto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompêra. O seu companheiro bradou aos barqueiros com a voz trémula e cansada de um ancião:

"Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!"

Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram lá comsigo que muito damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam tão devoto trovar.

Repararam, porém, que dos dous desconhecidos, o que suspirára e gemêra lançára os braços ao pescoço do que falára, e que este, affagando-o, lhe dizia:

"Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos creei, e á esclarecida e sancta memoria de vosso virtuoso pae."