Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimára as lagrymas da compaixão e do remorso.
"Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!—replicou a rainha.—Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a pobre Leonor Telles."
O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um coração de marmore.
"Enlouqueceste, Leonor?—exclamou el-rei.—Aborrecer-te? Sem ti este mundo fôra para mim um ermo, a corôa martyrio, a vida maldicção de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei: não me pêsa. Mil vezes que tu o queiras t'o sacrificarei de novo."
"Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu!"
"Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo, e verás se as minhas palavras são sinceras!"
"Ha um, rei de Portugal!"—replicou Leonor Telles, em cujos olhos scintillava o contentamento.
Dizendo isto ella se affastára d'elrei. O seu aspecto tomou subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da côrte entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor Telles, ajoelhou e entregou-lh'o.
A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se á esquerda da cadeira de D. Fernando.
"A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.[4]"