D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com o raio visual, o tremor das suas mãos se tornava mais violento, as contracções do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de ler atirou o pergaminho ao chão, e com voz terrível exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:
"Mulher, que me pedes tu?"
"Justiça, e as minhas arrhas."
Era a primeira vez que elrei ousava resistir á vontade de Leonor Telles. Ella ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a insolencia de uma resolução incontrastavel.
"Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos. As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor d'inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar, dos patibulos já têm pendido sobejos cadaveres[5]. E ainda não satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor! tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!"
D. Leonor repellíra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando, que mal acreditava a própria audacia, com um olhar em que se misturava a indignação e o despreso. Ella ouvira as suas palavras sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para a janella d'onde batia o luar, e estendeu a mão para o céu:
"Ha dous annos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavalleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher póde ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavalleiro—e o cavalleiro mentiu. As bôcas de homens vis vomitavam contra essa mulher, e a essa mesma hora, os nomes de adultera, de barregan, de prostituta, e pediam a sua morte. O cavalleiro sabia que taes affrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavalleiro ofereceu a sua alma aos demonios se não as lavasse com sangue—e esse cavalleiro blasphemou e mentiu. Senhor rei, diante do céu que elle invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quaes jurou, á luz da lua que o allumiava, dir-vos-hei: aquelle cavalleiro foi perjuro, blasphemo, desleal e covarde, e eu a sua victima. É contra elle que ora vos peço justiça. Rei do Portugal, justiça!"
Esta ultima palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. Elrei, que durante o discurso de D. Leonor se erguêra pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diabolico e pelo seu olhar fulminante, cahiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu a cara com ambas as mãos, e depois de um momento de silencio murmurou:
"Mas como punir aquelles que talvez são cadaveres? A guerra e a furia popular os puniram!"
D. Leonor trinmphára.