O corregedor saíu.

A um aceno de D. Leonor, o donzel metteu a tocha no annel de ferro embebido na parede, d'onde a tinha tirado, e encaminhou-se para juncto da porta, onde ficou com os braços cruzados, olhos no chão, e immovel como uma estatua. Desde este dia o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquella que lhe cingira a espada. O generoso Nunalvares conhecêra que debaixo desse rosto suave se escondia um instincto de besta-fera.

Os dous fidalgos continuaram a passeiar de um para outro lado, conversando em voz baixa e como alheios á scena que alli se passava.

Elrei tomára a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas orbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa alienação daquella alma timida, atormentada por mil affectos oppostos.

Ouvia-se apenas o cicío dos dous que conversavam. E por largo espaço aquetle murmurio, e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o unico ruído que interrompeu o silencio do vasto aposento.

Elrei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das idéas tenebrosas que lhe offuscavam o espirito, e que protrahidas o levariam bem proximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Telles apparecia-lhe como composto monstruoso de vulto d'anjo e de olhar de demonio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror affastava-o della. Via-a como um simulachro das virgens, que, na infancia, imaginava ao ouvir ler ao bom de seu aio Ayras Gomes as lendas das martyres; mas logo cuidava ouvi-la dar risada, infernal passando por cima das ruinas de cidade deserta. O patibulo e os delirios amorosos; o cheiro do sangue e o halito dos banquetes misturavam-se-lhe no senso intimo: e o pobre monarcha, nos seus desvarios, perdêra a consciencia do logar, da hora e da situação em que se achava naquelle terrivel momento.

Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lagrymas ainda mais ardentes que a regavam foram como faisca electrica revocando-o á razão e á realidade da vida.

A commoçào indizivel e mysteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus pés: era ella quem lhe cobria a mão de beijos e lh'a regava de lagrymas.

D. Fernando affastou-a suavemente de si: ella alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era de feito a imagem de uma das martyres que elle via no seu imaginar da infância. D. Leonor ergueu as mãos supplicantes com um gesto de profunda angustia: então era mais formosa que ellas.

"Ah!"—murmurou elrei:—"porque é o teu coração implacavel, ou porque te amei eu tanto?!"