"Desgraçada de mim!—acudiu D. Leonor entre soluços.—O teu amor era como o iris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperança; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Telles desvanecer-se-ha e passará com elle!"

"É porque sabes que esse amor não póde perecer; que esse amor como um fado escripto lá em cima—interrompeu D. Fernando—que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer tuas crueis vinganças: é porque sabes que eu esgóto sempre o calix das ignominias quando as tuas mãos m'o apresentam, que tu me sacias de deshonra. Terás acaso algum dia piedade daquelle que fizeste teu servo, e que não póde esquivar-se a ser tua victima?"

"Oh quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces!—exclamou Leonor Telles limpando as lagrymas.—Foi a tua dignidade real, a tua justiça, o teu nome que eu quiz salvar da tua propria brandura. Aos mesquinhos que me offenderam perdoei de todo o coração; mas tu, que eras rei e juiz, nào o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pae ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é porque teu pae foi implacavel contra os criminosos, e aquillo em que pões a deshonra e a ignominia, é a coroa de gloria immortal que cérca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade e blasphemia, que não cabem em coração e labios de cavalleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada, dize-me só—Leonor, já não te amo!—e eu ficarei punida; porque nessas palavras estará escripta a minha sentença de morte! Possas tu depois perdoar-me, e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma expressão de piedade!"

As lagrymas e os soluços parecia não a deixarem proseguir. Reclinou a cabeça sobre os joelhos d'elrei, apertando-lhe a mão entre as suas com um movimento convulso.

Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre monarcha? Unindo a face áquella fronte divina, só lhe disse:—oh Leonor, Leonor!—e as suas lagrymas misturavam-se com as della.

Durante esta lucta da dor e da hypocrisia, em que, como sempre acontece, a ultima triumphava, o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles tinham-se encostado á janella fatal que dava para o rio, e que tambem dominava grande porção do arrabalde occidental da cidade. O espectaculo da noite era de melancholica magnificencia.

A lua caminhava nos céus limpos do nuvens, e pela face da terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas aguas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava, além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva onde espelhar-se, ou um sussurro do lesta acorde com as suas harmonias. O incendio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um cahos de ruinas, um cemiterio sem lapides. Apenas no extremo do seu, d'antes, mais rico e povoado arrabalde amarelejava pulido pelo tempo o gothico mosteiro de S. Francisco juncto de sua irman mais velha a igreja dos Martyres. No valle que ficava em meio a luz do cima embebia-se inutilmente na povoação que jazia extincta. A bella lua de maio, tão fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se á leôa, que voltando ao antro acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indifferente, e frio, não o crê, e vae, e volta muitas vezes renovando seus inuteis affagos. Lisboa era um cadaver, e a lua passava e sorria-lhe ainda!

Mas no meio daquelle; chão irregular, negro, callado, viam-se aqui e acolá luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as reliquias dos mortos, para lhes darem sepultura christan. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo, que para se esforçarem cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham com triste som bater de vez em quando nos ouvidos dos dous cavalleiros. Resavam as coplas:

D'amigos e imigos,
Que ahi são deitados,
Levemos os ossos
Ao chão dos finados.
Ave Maria!
Sancta Maria!

Madre gloriosa,
Dess'alta ventura
Demovei os olhos
Á nossa tristura.
Ave Maria!
Sancta Maria!